23 julho, 2009

GUERRA E PAZ - XLIII

Otto Dix, Tropas Avançando sob Gás
O Livro III começa assim:
"Desde finais de 1811 que começou a intensificar-se na Europa Ocidental o armamento e a concentração de forças, forças estas - milhões de homens (incluindo os que transportavam e alimentavam as tropas) - que em 1812 se puseram em movimentação, de ocidente para leste, até às fronteiras da Rússia, onde também já se concentravam, desde 1811, as forças russas. No dia 12 de Junho, estas forças ocidentais atravessaram as fronteiras e começou a guerra, ou seja, um acontecimento contrário à razão e a toda a natureza humana. Milhões de pessoas cometiam mutuamente tantos e tão grandes crimes, falsidades, traições, roubos, falsificações, inclusive de papel-moeda, assaltos, incêndios e assassínios que os autos de séculos inteiros dos tribunais de todo o mundo não conseguiriam juntar nada de semelhante e que, neste período, não eram encarados como crimes pelas pessoas que os cometiam".

A guerra é muito engraçada. É como um jogo. Quando se joga andebol sabe-se que as regras são diferentes das do futebol. No futebol é proibido jogar com as mãos mas já não se pode jogar andebol se não for com as mãos.

Ora, como explicar que comportamentos considerados criminosos se tornem, durante a guerra, normais? Como explicar o facto de, na guerra, pessoas normais aprenderem a cometer as maiores barbaridades? Pior: e a gostar de as cometer? Passarem a jogar futebol com as mãos e encarar isso com a maior das naturalidades? Estar a jogar assim e, ao mesmo tempo, assobiar para o ar para esconder e dissimular a violação da normalidade?

Para responder a isto, terei que contradizer o escritor russo. Diz ele que a guerra é contrária à razão e à natureza humana. Ok, pode ser contrária à razão, concedo. Mas não é contrária à natureza humana.

2 comentários:

José Trincão Marques disse...

Concordo com a conclusão deste post, que aparentemente contradiz o teu outro post de 23 de Junho de 2009, sobre Adolf Hitler (do qual discordo).

Ega disse...

A guerra, se se puder considerar um jogo, será o jogo mais simples, porque simplesmente na guerra não há regras (pelo menos nas guerras modernas em que desapareceu o código de honra cavaleiresco e as convenções internacionais são letra morta)

Na guerra, ou se mata, ou se é morto. Num cenário destes, tudo é possível acontecer, inclusive os indivíduos ficarem de tal modo alienados que cometam os crimes mais hediondos sem justificação aparente.