18 julho, 2009

GUERRA E PAZ - XLII

"Pierre estava a reconhecer no seu amigo aquela necessidade própria dele se preocupar e discutir sobre um assunto que lhe era alheio apenas para abafar os seus pensamentos íntimos, demasiado penosos". Livro 2, Parte 5, cap. 21

Eu desconfio muito das pessoas que gostam excessivamente de trabalhar. Atenção, não estou a falar das que precisam de ganhar mais dinheiro para enfrentar as dificuldades da vida, ou das que o fazem porque são obrigadas ou porque a própria natureza do trabalho a isso as obriga.

Falo das que trabalham mais do que deviam sem terem qualquer necessidade disso. As que são as primeiras a chegar ao trabalho e as últimas a sair, sem haver necessidade disso. Que adoram fazer reuniões e mais reuniões sem haver necessidade disso. Que estão sempre a inventar projectos e a pensar em papéis para preencher. Que fora do trabalho só falam de trabalho e pensam no trabalho. Ou que levam trabalho para casa, podendo não o fazer.

Essas pessoas, perante o olhar acutilante do nosso Pierre, são absolutamente transparentes

4 comentários:

marteodora disse...

Bastante pertinente a tua observação.
Às vezes sinto-me um bicho raro, mas depois de ler o teu texto, sinto-me mais reconfortada e menos sozinha neste mundo.
E passo a explicar.

Há VIDA para além do trabalho e tristes daqueles que não a têm.

Enquanto trabalhamos, devemos dar tudo, é para isso que nos pagam!
Mas, para quê chegar todos os dias uma hora mais cedo ao serviço? Ou para quê sair, todos os dias, uma hora ou duas mais tarde?
Ok, há coisas inadiáveis. Certo. Mas todos os dias???

Só para quem não tem mais nada que fazer, ou não tem ninguém interessante à sua espera fora das portas do emprego.

Ainda assim, continua a ser estranho.
Há sempre um bom livro, um telefonema para uma pessoa que nos é especial, uma voltinha de carro ou um passeio a pé para desanuviar, um copo na esplanada, uma ida ao cabeleireiro, e por aí fora.

O trabalho dignifica e é muito importante para a nossa saúde mental e para o nosso equilibrio pessoal e social. Enriquece-nos, LOL!

Mas pobres daqueles que apenas com a sua ocupação laboral saciam as suas necessidades e obtêm as suas fontes de satisfação.
Não é saudável, nem tem muito que ver com a nossa génese enquanto seres humanos, que um dia fomos recolectores, nómadas e que prezávamos o ócio para depois dotarmos a nossa civilização com descobertas maravihosas ocorridas em momentos de, apenas, pura contemplação.

O lazer apura-nos o sentido crítico e a criatividade, elementos essenciais para resolver problemas do nosso quotidiano laborar. E é por isso que é tão importante arejar as ideias e ter na cabeça um botão para desligar e passar para outro canal.

Já me aconteceu ser obcecada com o trabalho e não conseguir desligar. E, uns meses mais tarde, isso valeu umas consultas médicas, umas faltas ao serviço e uns meses valentes de toma diária de uns químicos que lá me ajudaram a reequilibrar. Não terá ajudado muito a minha prestação no emprego, certo?
Por isso, vos digo: There's a life outhere. Enjoy it!:D

Além disso, ser workaholic já nem sequer está na moda :D

Pena é que nem todos possamos disfrutar desta dicotomia, labor/lazer e que haja para aí muita gente sem oportunidade de trabalhar!

marteodora disse...

Escrevi à pressa e o texto foi com umas gralhas. Peço desculpa.

José Ricardo Costa disse...

O comentários não é actas pra sere lidas e aprovada. É o tipo de textos precisamente para ser escrito à presssssa.

Bj e fica em paz,

JR

Mafalda disse...

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley :)
Às pessoas referidas no post chamam-se, vulgarmente, "workaholics". No contexto para que são remetidas, considero-as um pouco cobardes.
Mas que se há-de fazer, cada um tem a sua maneira de lidar com os nervos. O outro não picava folhas de loureiro?