07 julho, 2009

GUERRA E PAZ - XLI

Vilhelm Hammershoi

Há um capítulo muito interessante (e, perdoem-me as almas mais sensíveis, divertidíssimo) todo ele marcado pela ideia de melancolia. (2ºvol, parte 5, cap.5)

Temos um homem e uma mulher em fase de acasalamento. Ora, todo o processo de aproximação entre eles é pautado pelo espírito de melancolia. Mais do que uma sublimação da líbido, a melancolia é, neste caso, interiorizada como elemento de um código social que legitima a aceitação do outro. Percebe-se claramente o modo como tal sentimento teria uma função semiótica fundamental no século XIX, numa classe social elevada, tal como a roupa, a casa ou a linguagem. Diria que a melancolia tem ali o mesmo estatuto que terá hoje o sentido de humor, o ser divertido ou simpático.

Tudo o que se segue pode ser encontrado em 4 páginas:

" Tal melancolia não era obstáculo para que se divertisse e também não impedia os jovens de passarem um tempo agradável em sua casa. Cada jovem, quando chegava a sua casa, pagava o tributo devido ao estado melancólico da anfitriã e logo passava às conversas mundanas, às danças, aos jogos de espírito e aos concursos de bouts rimés, muito em voga na casa dos Karáguin"

" Apenas alguns jovens, entre os quais Boris, se embrenhavam mais a sério na disposição melancólica de Julie(...).

"Boris desenhou-lhe duas árvores no álbum e escreveu: «Arbres rustiques, vos sombres rameaux secouent sur moi les ténébres et la mélancolie"

"- Il ya quelque chose de si ravissant dans le sourire de la mélancolie" - disse a Boris.

" Em resposta, Boris escreveu-lhe estes versos:
Aliment de poison d'une âme trop sensible
Toi, sans qui le bonheur me serait impossible,
Tendre mélancolie, ah, viens me consoler
(...)"

"Para Boris, Julie tocava na harpa os mais tristes nocturnos. Boris lia-lhe em voz alta A Pobre Lisa e, repetidas vezes, interrompia a leitura por causa da emoção que lhe cortava a respiração".

"- Toujours charmante et mélancolique, cette chère Julie - Dizia ela a Julie".
"Havia muito que Julie esperava o pedido de casamento do seu adorador melancólico e estava pronto a aceitá-lo".

" (...) aquela sua expressão permanente de quem está pronta a passar imediatamente da melancolia para o enleio pouco natural da felicidade nupcial".

"Boris estava tímido precisamente porque a amava. A sua melancolia, porém, começava a transformar-se em irritação(...)".

"A ideia de ficar com cara de parvo e de ter perdido em vão todo aquele mês de serviço melancólico junto de Julie (...).

Agora, verdadeiramente delicioso é o parágrafo com que termina o capítulo, encerrando-se assim um "mês de serviço melancólico":

"Os noivos, deixando de mencionar as árvores que espalhavam por cima deles as trevas e a melancolia, traçavam planos de como montariam uma casa brilhante em Petersburgo, faziam visitas e preparavam tudo para um casamento de luxo".

Ou seja, estando a conquista já conseguida e o casamento seguro, que se lixem as árvores, as trevas e a melancolia. Ok, acendam as luzes, o espectáculo vai começar. A melancolia é um sentimento de pessoas felizes e serenas. E, no século XIX, nas famílias de elevada posição, o casamento era apenas um acto social como outro qualquer e levado tão profissionalmente como um almoço um entre homens de negócios observados pelas dezenas de mesas que enchem o resto de restaurante. O casamento, no século XIX, não servia para fazer as pessoas felizes e serenas. É, pois, por isso, que o divórcio é uma criação do moderno século XX. As pessoas começaram a sentir-se no direito de ter eternamente o seu direito à "melancolia" e "serenidade".

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