10 julho, 2009

F.W. MURNAU - SUNRISE


Eu não sou como aqueles cinéfilos muito inteligentes e especiais que acham que um filme para ser bom deverá ser como certos vinhos, neste caso, ter pelo menos 30 anos. Há filmes antigos péssimos e sublimes como há filmes novos péssimos e sublimes.

Quando me preparei para ver Sunrise, filme mudo de Murnau, realizado em 1927, fi-lo sem quaisquer preconceitos. Sem pensar que era antigo, sem pensar que era de um realizador reconhecido, sem pensar na sua antiguidade para desculpar eventuais defeitos. Preparei-me para vê-lo como me prepararia para ver um filme actual.

Depois de o ver retirei as seguintes conclusões:

1. A emoção e o suspense estão lá com a mesma força e intensidade como se de um filme actual se tratasse. É impressionante a capacidade de, com aqueles meios técnicos, conseguir criar um pathos tão intenso e envolvente. O filme é excelente e afirmo-o sem o tal preconceito segundo o qual, por ser muito velhinho, teria que o ver com alguma complacência.

2. A minha questão agora é a seguinte. Até que ponto um filme mudo não nos dá o cinema no seu estado mais puro? Até que ponto a introdução do diálogo não veio adulterar essa pureza? O realizador, apenas com as imagens (e a música, claro) consegue construir uma narrativa que no cinema moderno se tornou impensável. Neste sentido, não serão as palavras, no cinema, um apêndice literário que deveria ficar reservado para a literatura? É verdade que há filmes com magníficos diálogos. Mas o diálogo não deixa de ser um recurso literário, a sua essência é literária. Ver um filme mudo obriga-nos a ver um filme através daquilo que faz intrinsecamente parte do cinema: a imagem.

3. Outro aspecto interessante é a sua economia narrativa. Não há ali elementos supérfluos. Vê-se o que é preciso ver e chega. Mas é que chega mesmo, não existindo qualquer sensação de faltar seja o que for para sustentar a lógica interna do filme.

4. Há no filme uma certa ingenuidade no modo como a narrativa é construída. Como explicar? Pensemos na enorme distinção entre a pintura medieval e a pintura renascentista com a descoberta da perspectiva. Numa pintura medieval temos escalas erradas e uma mistura desorganizada de elementos cuja disposição espácio-temporal não corresponde à realidade. Com a pintura renascentista, pelo contrário, passa a existir não apenas uma maior coerência interna no quadro mas também no modo como a realidade é representada.
Ora, o modo como o espaço e o tempo são representados no fio narrativo do filme de Murnau, está já muito longe do que se passa no cinema moderno. Independentemente de se tratar de um filme americano de acção ou de um filme de Manoel de Oliveira, há uma lógica narrativa que nós intuitivamente entendemos como sendo nossa.

No filme de Murnau, pelo contrário, há uma quase sobreposição de elementos espaciais e temporais que já não é a nossa. O realizador tem que narrar em 10 minutos, de forma concentrada, os mesmos conteúdos que, num filme moderno, são enriquecidos (ou empobrecidos?) com elementos supérfluos e dispensáveis mas que ajudam a aligeirar a visão do filme, se quisermos, a descontrair. Um pouco, como na literatura, o que distingue um conto de um romance. No caso do filme, há ali uma ingenuidade e uma graciosidade que, mais do que lhe tirar verosimilhança, nos dá uma outra maneira de ver cinema. Já não é a nossa maneira mas não deixa de ser uma outra, e interessante, maneira.

Um grande filme que vale a pena ver.

2 comentários:

José Borges disse...

É um dos meus filmes preferidos, sem dúvida. Aliás, nessa lista ainda há o Nosferato, sinfonia de terror, também do Murnau.

Sobre o seu segundo ponto seria interessante ver o Sunset Boulevard, do Billy Wilder. É espontosa a quantidade de filmes mudos que foram destruídos aquando da passagem do cinema mudo ao sonoro. Enfim...

Micha disse...

ok...ser cego na era do cinema mudo... uma experiencia e tanto. Thanks pelo insight :)