25 julho, 2009

FLORES ARTIFICIAIS

Boris Ieremeevich Vladimirski, Flores para Estaline, 1949

Este belo quadro, exemplo supremo do chamado "realismo socialista", é verdadeiramte sublime. Antes de mais, veja-se o azul do mar e o verde do jardim. Estamos, portanto, no paraíso. Depois, olhemos então para os corpos que povoam a imagem. Para a rigidez dos corpos das crianças e suas expressões faciais, como se tivessem sido repentinamente paralisadas pela presença de um deus. Depois, o próprio deus. Um deus que recebe flores mas que nem sequer olha para as crianças que lhe oferecem as flores. Nem poderia. Seria dar demasiada confiança. Um deus não pode olhar para os olhos de quem o olha. O deus, aqui, olha em frente, pensando certamente no futuro destas crianças, na melhor maneira de cuidar do belo jardim em que se encontram.

Mas há aqui uma peça que avaria toda esta engrenagem: a criança que se encontra do lado direito do ditador. É a única que ri e que revela um ar de consciência e lucidez. A única também cujo corpo não está completamente rígido, denunciando uma pequena inclinação. Esta criança devia ser a única a perceber que estas rosas são tão artificiais como tudo aquilo que aqui se vê. Há, porém, ainda hoje, gente que não percebe.

2 comentários:

C.M. disse...

Excelente artigo!

nefertiti disse...

De facto a criança que ri denuncia a toda aquela teatralidade.
Descrição muito perspicaz.