29 julho, 2009

FÉRIAS


Há um filme chamado Vermeer em Nova Iorque graças ao qual dá para entender a sedução das pinturas do pintor holandês numa cidade que nunca dorme e que vive freneticamente os seus dias. Estranho? Apenas um bom exemplo que ajuda a compreender o fascínio de Vermeer na era dos telemóveis, da informática, da ditadura do relógio e do carro, da notícia de “ultíssima” hora mas que já é velha no dia seguinte.

Quase todas as suas pinturas são de interiores onde encontramos gente comum em banais gestos do quotidiano. Mas embora tratando-se de pessoas, casas, gestos, expressões do século XVII, existe uma familiaridade naquelas imagens que dá a estranha sensação de tanto podermos ter sido nós a ser levados para o século XVII como elas para o século XXI. Uma familiaridade que resiste aos séculos. São quadros que, apesar das diferenças no vestuário e nas decorações, permitem vislumbrar uma luz e silêncio intemporais que nos afagam. Parece pintura realista. Mas não é. É antes uma pintura subtilmente invadida pelo silêncio e pela luz como se fossem a matéria íntima de que são feitas as coisas.

Veja-se o fio branco de leite que corre. Quer dizer: que corre, mas parou para sempre, tal como o olhar que o contempla e o braço que lhe dá o movimento. Esta imagem é uma vitória da eternidade sobre o tempo, da tranquilidade sobre a azáfama, do silêncio sobre o ruído. Se escutarmos bem o silêncio, conseguiremos mesmo ouvir, apesar da distância dos séculos, o eterno som de um fio de leite que cai numa terrina de barro.

Olhar para os quadros de Vermeer é como se, de repente, encontrássemos um chão seguro e familiar graças ao qual a vertigem da morte e do tempo dá lugar à serenidade de um lar. Pois é mesmo isto que eu acho que nós devemos também procurar nas férias. Há quem vá de férias e continue a viver como no resto do ano. A ler os mesmos jornais, as mesmas bichas no supermercado, a telenovela à hora do costume, os engarrafamentos de manhã e à tarde, o telemóvel sempre ligado.

Podemos olhar para as férias através de duas vias: a via negativa e a via positiva. Negativa, porque mostra as férias como negação: um período em que não se trabalha, em que não se veste a roupa habitual, em que não se tem que levantar à hora normal para ir trabalhar, em que não se tem que almoçar à pressa ou apanhar os transportes do costume. As férias, vistas assim, são uma espécie de não-ser, uma coisa sem consistência ontológica. Não são o que são, mas apenas o que não são.

A via positiva é a que permite olhar para um este período, procurando activamente qualquer coisa e não apenas em que se foge de outras. Procurar o quê? Novas sensações que durante o ano nos estão vedadas, pequenas revelações que se escondem timidamente debaixo do material bruto colado à superfície das coisas.

As férias devem ser um tempo de luz e de silêncio. De uma luz e de um silêncio que existem nas próprias coisas, no movimento, nas imagens, nos próprios sons. Como se fossem um alimento. Um alimento que nutre para a vida inteira e que escapa à lógica das digestões dos alimentos passageiros. Esses, comemos nós ao longo do ano.

9 comentários:

nefertiti disse...

As minhas férias são passadas sempre na aldeia: locus amoenus.
Todo esse ambiente que fala e que é retratado nos quadros de Vermeer, são vividos por mim durante as férias. Desligo o telemóvel. O computador esse continua, mas com pouca frequência eu o utilizo. Sou uma sortuda. É assim que eu recargo as baterias : )) Contudo, sei perfeitamente que há pessoas que não suportam este sossego. Tenho provas : ))

nefertiti disse...

... e muito obrigada : ), já não sofri tanto.

jl disse...

1. Note que a sua amiga disse: "já não sofri TANTO" (o tanto em maiúsculas e em negrito - que não se vê aqui - é meu, bem entendido)

2. Será que posso ver aqui a resposta à minha pergunta no mail (na mala do despacho) de hoje?

3. Registei: «As férias devem ser um tempo de luz e de silêncio.».
Também.

abr

nefertiti disse...

jl: disse mal, eu não me expressei nada bem.Fui péssima, é um facto. Correu mal, admito.Às vezes passo a correr e nem revejo o que escrevo. Deverei ter mais atenção, pois estes textos merecem pela qualidade e prazer que me dão.
Nunca sofro com as leituras que aqui faço. Disse no outro post que sofria, mas foi em tom de brincadeira,porque até gosto do recurso que o Ricardo,por vezes, utiliza. Gosto muito deste espaço.
Desde já, peço mil desculpas ao Ricardo e agradeço ao jl por ter evidenciado esta minha indelicadeza.

Cumprimentos,
Helena

José Ricardo Costa disse...

Cara Helena, por quem é! Eu é que agradeço as suas amáveis palavras. E olhe que o jl também é um brincalhão...

Cumprimentos,

JR

jl disse...

Mas, Helena, que indelicadeza?
Pelo amor de Deus. Não vi nada disso no termo. Nem ninguém verá, estou certo.
Afinal, qual seria o processo soft de o dizer, para uma pessoa bem educada como a Helena?

Essa de que eu evidenciei a sua indelicadeza, Helena... Não a conheço, mas dá para entender que nem parece seu.

Além disso, uma coisa é o espaço do JR e da Ivone quanto ao conteúdo e respectivo sumo, outra o tipo de letra que aí utilizam.

Quanto ao espaço reafirmo o que já disse várias vezes: sai-se daqui sempre mais rico. Aprende-se sempre (ou recorda-se, noutros casos) qualquer coisa...
Quanto à logotipo (os brasileiros parece que nos querem obrigar a dizer logótipo... Mas vá: não nos obrigarem a escrever logôtipo!), isso é uma minudência...
Ou não será?

Afinal, eu - exactamente, eu - é que devo um pedido de desculpas...
Por ser causa do seu mal-estar...

Sabe, Helena, sou um velho incorrigível!
Mas creia que, sinceramente, não pretendia magoá-la.
Só queria brincar com o nosso JR!

Com todo o respeito, os meus recados, Helena

jl

nefertiti disse...

O jl é muito simpático, não o conheço, mas TAMBÉM gosto de si : )
Obrigada e boas férias.

addiragram disse...

Questionei-me (filosoficamente, falando...) se a negação não poderia ser também um espaço potencial para o ser. Por exemplo, o não levantar à hora habitual, pode criar condições para recuperar uma infinidade de coisas, algo esquecidas,pelo ano fora. Nesse caso a negatividade não seria um não-ser ou um vazio, mas um poder-ser-outro."Não há nada mais livre que um relógio parado".De facto, quando se está em fuga do que nos pressiona fugimos, essencialmente, de algo que nos acompanha permanentemente e que, mesmo em férias, não nos larga.
Já tinha percebido como gosto tanto das minhas estadias pelo campo; não descobrira ainda que o Vermeer andava por lá...
Umas luminosas e silenciosas férias! Também estou de partida.

José Ricardo Costa disse...

Num texto chamado " O Sofista", Platão considera o "não ser" um dos cinco géneros.

Claro que o não ser tem valor ontológico. Nós somos também o que não somos. Se eu sou carpinteiro, não sou dentista. Não ser dentista faz também parte de mim. Eu sou não ser dentista. Mas no caso das férias, a via positiva parece-me mais interessante. A via negativa será interessante se estiver implicada na positiva. Considerar as férias apenas um período em que não se trabalha, acorda cedo ou se anda de transportes públicos, parece-me pobre.

JR