10 julho, 2009

ESTEREÓTIPOS E PRECONCEITOS


Tendo o meu prédio 7 andares, os elevadores transportam diariamente muitas pessoas. Uma das experiências mais interessantes nestas minhas diárias viagens é o rasto dos perfumes que sobrevivem à passagem dos utilizadores.

Por um lado, há os cheiros que facilmente associo às pessoas, por já ter antes passado por elas na entrada do prédio ou com elas ter partilhado o elevador. Como tenho um olfacto apuradíssimo, a associação é muito fácil de fazer. Entro no elevador e de imediato elaboro mentalmente uma imagem física da pessoa. Sei que aquele cheiro é o cheiro daquela pessoa e com aquele perfume acabo por ter uma relação específica com aquela pessoa. O cheiro, neste sentido, está para a pessoa como a sua voz ao telefone ou a sua letra numa carta. Não é a pessoa mas não deixa de ser um reflexo claro, objectivo e definido dessa pessoa.

Por outro lado, há pessoas no meu prédio que eu nunca vi. Mas, apesar disso, mantenho com elas uma relação através dos seus cheiros. E é aqui que a experiência se torna estranha. Eu sei que aquele cheiro é de uma certa pessoa que eu já identifico depois de ter cheirado duas ou três vezes. Só que enquanto o cheiro é concreto, palpável, entrando-me pelas narinas, a pessoa não passa de uma abstracção, um fantasma. A única coisa que consigo formular na minha consciência é o seu cheiro.

Eu acho que a percepção que certos animais terão das pessoas não deverá andar muito longe desta experiência. Uma percepção configurada através do olfacto. A pessoa é, para o animal, o que este organiza sensorialmente através do olfacto.

Mas eu também posso usar esta experiência para falar de outra coisa. Quando pensamos em fenómenos como o racismo ou em certos tipos de discriminação em virtude do sexo, classe social, cor de pele, profissão, geografia, etc., não devemos andar muito longe deste tipo de percepção. Trata-se de fenómenos em que os outros não são entendidos de um modo, claro, objectivo e definido. Não temos uma relação concreta com a pessoa, ficando reduzida à condição de fantasma. Ora, sempre que falamos de estereótipos e preconceitos relativamente a pessoas que não fazem parte da nossa experiência social mais íntima e pessoal, caímos num nível mental perto da animalidade. Deixamos de pensar para passarmos a cheirar. Para passarmos a farejar.

O outro deixa de ser uma pessoa concreta, sendo transformada num cheiro. Quase sempre de um perfume barato.
Jornal Torrejano,, 9 de Julho de 2009

4 comentários:

marteodora disse...

Muito interessante, Zé Ricardo.
Nós, os humanos somos seres muito primitivos e, geralmente, subestimamos as capacidades dos outros, confiando mais nos nossos instintos no que os dos demais.

O olfacto é um exemplo (eu costumo ter sentimentos de culpa dado que tenho uma relação com os cheiros semelhante à que descreves e, normalmente, sou acusada de ser picuinhas relativamente à importância que lhes dou).

Porém, a visão é outro desses exemplos.
É curioso verificar de como nos deixamos enganar facilmente, no que ao carácter das pessoas respeita se atendermos só à cor da pele, classe social, indumentária, etc.. E, quem diz carácter, diz profissão, diz ascendência, entre outros.
Na realidade, não estarei a dizer uma grande mentira se afirmar que nós (o cidadão comum) mais facilmente associamos a violência a uma pessoa com o chamado mau aspecto do que a outra com um aspecto mais “clean” e a cheirar bem.

E como nos enganamos, numa boa quantidade de casos. Certo?
O faro, nestes casos, não dá lá muito resultado!
Há por aí muita gente lavadinha a fazer coisas que cheiram muito mal.

Margarida Graça disse...

Ontem senti-me um cheiro "roskof", só não posso explicar porquê. Fiquei baralhada. Os perfumes que uso são frescos e suaves e ultimamente tenho-me esquecido de os usar. Talvez esteja aqui o problema.

E o seu texto, fez-me lembrar o pensamento que me veio pela manhã: se tivesse vivido no regime de Salazar a idade adulta que vivo nesta 1ª década do século XXI, será que sentiria os receios que vivo na actualidade em me exprimir?!...

addiragram disse...

Parabéns! Belíssima crónica. Fez-me lembrar um cão que conheci há muitos anos que era adoptado pelos moradores dos prédios. Era afável com todos, excepto quando passava um negro...
Tinha uma pré-concepção do estranho que o levava a reagir correndo atrás das pessoas...Assim se passa com muita gente.

estela disse...

infelizmente tenho um olfacto péssimo, pelo que as minhas viagens de elevador não incluem tais aventuras, mas ao ler a crónica lembrei-me de uma expressão idiomática daqui que refere exactamente isso mesmo:
ich kann ihn gut riechen
poder cheirar alguém ou, no melhor dos casos, cheirar bem alguém.Também há para o caso oposto ;)

o que me interessaria saber é:
essa relação específica com um cheiro sem feições também é uma relação de pré-conceito, não é?
suponho que sendo um cheiro agradável o fantasma a ele ligado também o é :)
ou acontece mesmo pairar apenas um cheiro, sem forma nem ideia?