23 julho, 2009

CRER OU SABER?


Hoje, numa tabacaria, na capa de uma revista que eu nem sabia que existia (Glamorous Woman) estava uma enorme fotografia da actriz Holy Hunter acompanhada da seguinte frase: “Não acredito em Céu e Inferno mas sei que todas as acções têm consequências” As minhas orelhas levantaram-se logo, apesar de a frase, intuitivamente, fazer todo o sentido. Passemos, então, a analisar a frase.

1. Qual será, aqui, o critério para distinguir crença e saber? Ela usa o termo “acreditar” para se referir a uma dimensão não-empírica, neste caso, até sobrenatural. Por sua vez, usa o termo “saber”, pensando em acções concretas, comuns, portanto, associadas à realidade mais próxima das pessoas, tendo, por isso, um valor empírico.

E é assim que, habitualmente, as pessoas demarcam os territórios da crença e do saber (conhecimento). Ninguém diz: “Sei que Jesus acordou Lázaro depois de morto” mas “Acredito que Jesus acordou Lázaro depois de morto”. Do mesmo modo que ninguém diz: “Acredito que há praias em Portugal” mas “Sei que há praias em Portugal”.

Mas se pensarmos em conteúdos de natureza sobrenatural será que estamos condenados a reduzir o nosso pensamento ao domínio da crença? Assim sendo, Acreditar e não acreditar são equivalentes. Valem o que valem e nenhuma vale mais do que a outra. Saber e não saber, pelo contrário, têm um valor diferente. É muito diferente dizer: “Sei que há um museu em Londres onde está O Baloiço de Fragonard” e dizer: “Não sei se há um museu em Londres onde esteja O Baloiço de Fragonard”. Saber e não saber não podem ser níveis mentais equivalentes.

Imaginemos então agora uma pessoa que diz: “Acredito que há um inferno onde existem uns bodes pestilentos que picam os rabos das crianças que não comiam a sopa”. Como responder a isto? Como contra-argumentar? Dizendo: “Não acredito que haja um Inferno onde existem bodes pestilentos que picam os rabos das crianças que não comiam a sopa”? Mas isso, cá está, torna as opiniões equivalentes. E será que elas são mesmo equivalentes? Será que merecem ter o mesmo estatuto e credibilidade? Não será legítimo dizer antes: “Sei que não há um Inferno onde existem bodes pestilentos que picam os rabos das crianças que não comiam a sopa”? do mesmo que se pode dizer: “Sei que não andam anjos no céu a esvoaçar”?

A nossa actriz, na minha opinião, bem poderia ter dito saber que não há céu nem inferno em vez de dizer que não acredita no céu e no inferno.

2. E o que significa ela julgar saber que todas as acções têm consequências? Acho que ela quer dizer o seguinte: apesar de não haver céu e inferno, as boas e más acções das pessoas terão, mais cedo ou mais tarde, as suas consequências. Não pagaremos no Céu ou no Inferno mas havemos de pagar aqui na Terra. Ora, porque razão dirá ela agora que sabe em vez de dizer que acredita? Porque está a pensar em acções e consequências concretas, quotidianas, não no Céu ou Inferno mas no mundo empírico de todos os dias. Mas será que sabe mesmo?

Ela sabe que a água, fervendo a 100 graus, entra em ebulição. Sabe que, se largar uma pedra no ar, ela cai. Sabe que, se engolir ácido sulfúrico, morre. Ou seja, há aqui uma ideia de causalidade que funciona: uma causa que conduz a um determinado efeito. Existe o efeito porque existe a causa e se existir a causa existe necessariamente o efeito.

Mas que tipo de relação de causalidade haverá entre as boas e más acções e as boas e más consequências? Como pode ela saber que as pessoas que praticam boas acções têm boas consequências e as que praticam más, têm más consequências? Não pode. E não pode, porque não existe, mas não existe mesmo, qualquer vínculo causal entre uma coisa e outra. Ela poderá dizê-lo, enfim, por questões de fé. Porque quer, porque precisa de acreditar que assim seja. É um wishful thinking, apenas isso. Vale o que vale.

Em suma, a actriz Holy Hunter, na sua frase, disse tudo ao contrário. Deveria ter falado em saber quando falou em crença e ter falado de crença quando falou de saber.

6 comentários:

Fred disse...

Este seu post fez-me lembrar as nossas aulas de explicações. Em que por vezes falávamos precisamente sobre o Céu e o inferno e sobre Deus e Jesus Cristo. Excelente post mesmo.

Um abraço.

José Ricardo Costa disse...

Caro Fred,

As pessoas ainda vão pensar que as nossas aulas de explicações seriam assim, digamos, uma espécie de homilia dominical.Não eram. Eu nunca dei explicações aos domingos.

JR

Fred disse...

Por vezes, geralmente no final dessas aulas é que se falava um pouco de religião. Mas de resto eram sempre explicações de filosofia. Não eram missas.

José Ricardo Costa disse...

Obrigado, Fred, pelo esclarecimento. Era a minha credibilidade que estava em jogo.

Abraço,
JR

Fred disse...

Falava-mos mesmo era de filosofia. De religião nunca falava-mos muito. Que o José Ricardo não é Padre.

Abraço.

estela disse...

eu "acredito" mais nas palavras de wittgenstein:
o que é místico é que o mundo exista, não como o mundo é.
e um bocadinho mais atrás no mesmo tractatus: deus não se revela no mundo.

escrevo eu isto porque saber e acreditar não são comparáveis. a explicação é boa, mas parte do princípio que ambos os verbos são demonstráveis, ou passíveis de explicação. mas "acreditar" para mim (e para um wittgenstein verdinho e novo) está além disso.
para se poder acreditar tem de se desligar essa rede de informações. a crença dispensa explicações, demonstrações e análises. vive de si e do insenso e da falkta de senso :)

a minha avó, que era uma mulher lutadora e prática, entrava na igreja para sentir esse desapego ao mundo vivo e sofrido fora dela. levava-me comigo porque eu fazia parte da vida dela, não para me converter ou explicar porque é que era assim ou assado.

assim: é possível não acreditar em infernos e céus, mas saber que tudo o que se faz tem implicações. a frase é contudo uma parvoíce porque não acrescenta nada a nada mesmo.
para a crença não há meios termos (não se acredita um bocadinho no céu, ou mais no purgatório, ou talvez até mais na reincarnação, não fosse o papa, etc e tal).
e essas coisas da causa e consequência sabemos nós desde kant que são o modo como vemos o mundo e que não há como garantir que seja sempre assim.

resumindo e concluíndo: o que safa a holy hunter no meio disto tudo é o piano ;)