28 julho, 2009

CÃO COMO EU


Vinha eu de Castelo de Bode a conduzir em tronco nu, com os calções de banho ainda molhados e chinelos, quando tive a experiência radical de entender perfeitamente os cínicos gregos: senti-me verdadeiramente um cão.

É normal, pelas piores razões, uma pessoa às vezes sentir-se um cão. Os portugueses, pelo menos, estão habituados a isso. O que talvez já seja um bocadinho mais esquisito é gostar de me sentir um cão apesar de não ladrar nem me chamar Bobby.
Se eu aparecesse de tronco nu, chinelos e uns calções de banho molhados no meu local de trabalho, num banco, numa pastelaria ou na paragem de autocarros, as pessoas iriam olhar para mim com o mesmo ar de desprezo com que olham para um cão.

Mas, vindo de Castelo de Bode, num domingo à tarde de um dia de muito calor, torna-se normal. Sou um cão invisível. Ou melhor, um cão disfarçado de pessoa. É por causa disto que eu entendo por que razão Manuel Alegre escreveu um livro chamado ”Cão como nós”. Dizer ”cão como nós” equivale a dizer ”nós como um cão”. O que no caso do deputado, se entende perfeitamente. Alegre, como um cão, gosta bem mais de caçar e de pescar do que de estar na Assembleia da República a legislar, ainda que se vejam por lá deputados a dormitar como um cão de barriga cheia deitado no chão.

Provavelmente os devaneios desses deputados consistem em se imaginarem de tronco nu, chinelos e calções de banho molhados na baía de S. Martinho do Porto no meio de pessoas importantes também de tronco nu, calções de banho molhados e sapatos de vela onde supostamente deveriam estar uns chinelos. Até aqui tudo normal. Os deputados, como qualquer outro mortal, têm de ganhar a vida e a Assembleia da República até nem é dos piores sítios para o fazer.

Agora, o que já será deveras estranho é o facto de haver mesmo pessoas que não gostem da ideia de serem cães. Que gostam mesmo trabalhar e viver parte da vida fechadas em escritórios ou salas de reuniões. Um verdadeiro desperdício antropológico. A natureza foi amiga do homem: uma das grandes vantagens de ser homem é poder viver como um cão, ao contrário do cão, que não consegue viver como um homem.

Um dos grandes erros do marxismo foi transformar o homem num trabalhador. Olhar para o trabalho como factor de humanização. Até certo ponto o marxismo tem razão. Se não fosse o trabalho não haveria fábricas de calções de banho e chinelos e sem fábricas de calções de banho e de chinelos eu não poderia vir de Castelo de Bode com os calções molhados e de chinelos.
Mas o marxismo cometeu o erro grave de pensar numa humanidade sem veleidades caninas, toda ela rendida às maravilhas do trabalho. Valorizou na humanidade o trabalhador que há em nós em vez de dar valor ao cão que há em nós.

Imaginou a sociedade ideal como uma enorme fábrica na qual os trabalhadores confundiriam o fato de macaco com a sua própria pele. Não percebeu que a sociedade ideal é bem mais simples do que isso: um imenso canil onde podemos satisfazer as necessidades que nos fazem mais felizes.
Quase todas, quando estamos de férias.
Jornal Torrejano, 24 de Julho de 2009

5 comentários:

Nefertiti disse...

Sofro como um cão (no meu caso, cadela) quando o Ricardo põe essas letras minúsculas.

José Ricardo Costa disse...

Eu gosto muito de seguir a linha "small is beautiful", excepto no restaurante. Não é por acaso que aprecio miniaturas.

Mas em respeito pelos seus cansados olhos e, certamente, de outros leitores a quem a idade não perdoa (sei, melhor que ninguém, o que estou a dizer), de ora avante, as letras deste blogue passarão a andar mais dilatadas.

Cumprimentos e as minhas devidas desculpas.

JR

Ega disse...

Ah, não sou o único com problemas na leitura do texto.

Ao início até pensei que fosse a minha crónica miopia a pregar-me uma partida.

Cumprimentos,

Mafalda disse...

Segundo a sua teoria (com a qual concordo em absoluto, devo acrescentar), trabalhamos todo o santo ano lectivo, ansiando fervorosamente o dia em que nos tornaremos cães. Pelo menos, assim é no meu caso. A única coisa com qual não consigo lidar é com as pulgas. Mas penso que isso será o problema da população no geral.

jl disse...

Claro que é coincidência. Não se deve nada ao comentário que lhe fiz, ao postigo do quintal, acerca desta sua crónica no JT.
Mas, se bem me recordo, e se estou suficientemente atento, deixou de trazer para este sítio aquelas crónicas...
Pelos vistos terá concordado comigo...

abr
jl