31 julho, 2009

CAMEL, OF COURSE!


Há muitos anos, era ainda fumador, estava a passar férias no estrangeiro e não tinha o meu SG Filtro. Optei pelo Camel. Achei que dava um certo estilo. Nem era tanto o sabor. Era o nome exótico a fazer lembrar aventura, países distantes e misteriosos. Ainda mais anos antes, eu ouvia Rock progressivo. Um dos meus grupos preferidos chamava-se precisamente Camel, nome que encarava com grande naturalidade.

Pois. Mas quando hoje me aparece à frente um café da marca Camelo, fico logo desmoralizado. Não é pelo café em si. É pelo nome. Que raio de coisa, café Camelo! Camelo é quem que se lembrou de pôr nome tão bizarro a um café. Café deve chamar-se Delta, Nicola, Buondi, Segafredo, isso sim, nomes civilizados de café e que dão vontade de beber.

Mas não deixa de ser um grande mistério: por que razão acho ridículo um café Camelo, se achava agradável a ideia de fumar Camel ou de ouvir música dos Camel? Porque há nomes que em inglês soam bem, mas que em português fazem tanto sentido como Dias Loureiro a recitar poemas do Herberto Helder. Frankie Goes to Hollywood, The Doors, The Who, Yes, eram nomes que encarávamos com normalidade. Mas alguém imagina grupos portugueses chamados “Chico Vai Para Hollywood”, “As Portas”, “Os quem” ou os “Sim”? Achamos normal dizer: “Everything But The Girl”. Os ingleses também. Mas acharíamos absurdo dizer: “Comprei um disco dos “Tudo Excepto a Rapariga”.

É também isto que explica o facto de os nossos jovens escreverem nas carteiras e nas árvores “Fábio love Andreia”. Quando escrevem uma declaração de amor, dizem “I love you”. Eles são lá capazes de escrever “Amo-te”! Soa mal como o raio. Há letras de canções inglesas que nós cantamos com o ar mais sério deste mundo, mas, em português, coisas como “My love, I can’t live without you, please forgive me”, torna-se insuportável

Eu tenho uma teoria para isto: a nossa esquizofrenia. Nós até gostamos de ser portugueses mas temos um certo complexo, vontade de diluir a nossa personalidade colectiva. E isto reflecte-se nessa grande pátria que é a língua. Gostamos de dizer as coisas noutras línguas porque é uma forma de evasão, uma fuga para “outro país” onde não temos que sentir o peso trágico da nossa identidade.

Os franceses, os espanhóis, os alemães dobram os filmes. Mas não há um único português que goste de ver um filme dobrado. Porque enquanto os outros sentem orgulho na sua língua e acham normal reduzir toda a humanidade falante à sua língua, os portugueses sentem desconforto em ouvir a sua.Vi uma vez na televisão alemã a “Manhã Submersa” do Lauro António. Fiquei em estado de choque ao ver velhotas da Beira Alta, falando entre si como se fossem a Eva Braun e a Riefenstahl na casa de montanha de Hitler. Mas para eles aquilo é tão normal como ouvir um índio da Amazónia com o sotaque do Michael Schumacher.

Um português diz: “Vou fazer o download de um site cool que há na net e depois mando-te um mail com attachment” e sente-se logo liberto, longe de Portugal, sei lá, em Londres. O que interessa é esquecer o português, havendo sempre um pretexto para sair desta pátria cheia de palavras ridículas como “anexo”. A língua inglesa é uma espécie de pátria à qual pedimos constantemente asilo político para nos libertarmos de nós próprios, desta pátria maldita que falamos diariamente. Vai-se a um seminário qualquer e, às 11 horas, há um coffee break. Diz-se que a nossa sinistralidade rodoviária é um case study. Eu vou ao banco pedir um empréstimo e põem-se a falar no spread como se eu fosse o Adam Smith. Sabemos que há para aí dinheiro espalhado em muita offshore e nunca houve tanta press release como agora.
Até os nossos jovens quando manifestam alegria dizem “yes!” como se não fossem capazes de dizer “sim!” Acham ridículo dizer “Sim!” quando os pais os deixam ir sozinhos à discoteca, se calhar para uma Ladies Night. Tão ridículo como beber um café camelo.

5 comentários:

Micha disse...

delicioso post. Parabens.

miss_rochinha disse...

Ora bem... Por onde hei-de começar...
Saberá vossa excelência que não sou muito de fazer comentários. Leio com assiduidade e muito prazer os seus textos mas isto de comentar deixo para os 'comentadores'.
Mas este post merece, por motivos óbvios para o escritor, algumas palavras.
Isto de falar uma língua estrangeira, seja ela o inglês ou qualquer outra, tem muito que se lhe diga. Concordo que certas expressões sejam usadas como fuga, mas creio que na sua maioria são mais usadas para dar alguma musicalidade a este nosso português. Muitos 'não portugueses' me têm dito que a nossa língua soa a russo, búlgaro ou mesmo húngaro. Não tem a musicalidade mafiosa do italiano, ou o biquinho na boca do francês. Soa a uma música de discoteca, quando os donos querem fechar. Um tac-tac-tac ritmado e monótono que nos faz querer sair dali e ir para um bailarico. O inglês, sendo sem dúvida a língua universal, deixa-nos dar, aqui e ali, um pézinho de dança.
Não quer isto dizer que tenhamos menos orgulho na nossa língua. Eu diria que é o nosso espírito criativo.
Por curiosidade deixo aqui a nota que os holandeses e os belgas da parte flamenga, usam com alguma frequência expressões francesas. Belga que é belga, ou melhor, flamengo que é flamengo, não termina uma frase sem usar a palavra 'Allez'. Os holandeses chamam 'sinaasappel' à laranja, mas 'jus de orange' ao sumo da dita. Não somos só nós a querer 'fugir'...

Concordo que os filmes dobrados é coisa que soa muito mal... Mas mais uma vez, não é por vergonha... A voz é parte da representação. Um Sean Connery com outra voz não é O Sean Connery (só para dar um exemplo). Na Polónia a dobragem assume uma outra dimensão, uma vez que é feita por uma única pessoa durante todo o filme, normalmente masculina. Não me venha dizer que isto é ter orgulho na língua!!! É um crime, destruição de arte. E não conheço ninguém vindo de países 'dobradores' que não aprecie mais a versão original do filme...

Embora todo o português goste de usar aqui e ali um 'yes' ou um 'let's go', quando se trata de falar inglês 'fulltime', a vergonha toma conta da individuo. A nossa voz soa estranha naquela língua que entendemos mas que não é a nossa. É um pouco: um pézinho de dença está bem, mas não nos obriguem a dançar a noite toda!

Mais digo que todos os portugueses deveriam passar alguns meses a falarem exclusivamente outra língua. E aí perceberiam o quão estúpidas certas expressões estrangeiras são, e o quão trabalhada e LINDA é a nossa língua! E que é possível dançar uma bela dança ao ritmo deste tac-tac-tac...

Aproveito e desejo boas férias!
Enjoy the sun ;)

3RRR (Henrique Freitas) disse...

Meu caro, café Camelo não é mais nem menos do que café Delta.
É uma sub marca...Da mesma maneira que aparelhos electrónicos Crown são aparelhos Sony.

Ega disse...

E porque não a constituição de um "think tank" para analisar toda esta problemática?

De resto, e quanto a camelos, só aconselho o de Viana do Castelo, um bom restaurante (mas muito mau para a saúde). É óptimo para apreciar um saboroso sarrabulho nas noites frias do Inverno.

Cumprimentos, e já agora boas férias.

António Ventura disse...

Meu caro Ricardo:
O seu post, como sempre, é excelente, muito bem escrito e toca num ponto chave do nosso comportamento colectivo: a vergonha (ou mágoa?) de ser português.
É certo que se algum estranho diz qualquer coisa desagradável sobre nós ou o país, cai o Carmo e a Trindade, o patriotismo serôdio inflama-se, e logo exgimos uma nova cruzada sobre o infiel!
Mas a verdade é que a "mágoa" de ser português está cá dentro, fiel companheira da nossa maneira de estar na vida.
Mas a "miss_rochinha" tem razão em muito do que escreve e os seus argumentos e consderações nem são descabidos nem inconsistentes!
Enfim, a realidade é muito mais complexa e rica do que o branco e preto!
Pormenor a talho de foice: havia várias marcas de café em Campo Maior, todas (ou quase) pertentes a vários ramos da família Nabeiro.
Penso que os cafés Camelo são mais antigos que o Delta.
Lembro-me de ainda muito miúdo, ainda antes da primária, ouvir apregoar nas ruas o Café Camelo então vendido a retalho, ao peso, embrulhado em papel pardo, por vendedores ambulantes (como a sardinha, o pão, etc.).
Na altura nem s sonhava com o Delta!!!
Um abraço e boas férias!
António Ventura