01 julho, 2009

AS MINHAS FOTOGRAFIAS RELIGIOSAS

Fátima

Ao estimado Ega surpreende-lhe o meu fascínio pela religião, inquirindo-me acerca de uma explicação para o mesmo. Vou satisfazer a sua curiosidade embora nada haja nela de especial.

Eu sou radicalmente ateu. Filho de ateu. Neto de ateu. Não sou, portanto, sequer baptizado nem nunca fiz nada na vida que implicasse ter um padre à frente. O meu avô Joaquim Alexandre Inácio era republicano e maçon. Detestava padres embora fosse amigo de um, o padre Búzio. Um dia, estando o meu avô doente na cama, o padre Búzio foi visitá-lo lá a casa. A minha avó dirigiu-se então ao meu avô para lhe perguntar se o recebia. O meu avô respondeu: - Se vem como amigo, será bem-vindo, se vem como padre, daquela porta não passa.

Nunca me proibiram qualquer vivência religiosa, com uma única excepção. Todos ou quase todos os meus colegas de escola andavam na catequese. Eu pedi para ir e o meu pai não deixou.

Quando fui para a universidade encarava a religião com repugnância. Olhava para os padres e para as freiras como se fossem répteis viscosos, sentia-me desconfortável dentro de uma igreja, o cheiro das velas dava-me vómitos. Só consegui fazer Filosofia Medieval à terceira pois sempre que me punha a ler qualquer autor que tivesse “Santo” no nome, sentia-me obrigado a desistir. Cheguei a comprar uma Bíblia para ver se percebia certas coisas mas aquilo queimava-me os dedos e fazia-me arder os olhos.

Até que comecei a achar alguma piada a certas coisas de Santo Agostinho e descobri que a Summa Theologica era bem mais estimulante do que o nome sugeria. Fiz Filosofia Medieval com 14, uma óptima nota vinda do padre Cerqueira, um tipo engraçado que em quase todas as aulas falava no Nome da Rosa. Ainda hoje estou convencido de que merecia 15.

Eu nunca consegui entender a religião. Ainda hoje não consigo. Consigo entender o que se passa na cabeça de um homem que mata uma mulher para a violar depois. Explica-se facilmente. Consigo entender o que se passa na cabeça de um pedófilo. Explica-se facilmente. Consigo entender uma mãe que mata os filhos porque vai morrer e não os quer deixar sozinhos. Explica-se facilmente. Mas não consigo entender as pessoas que choram a olhar para um boneco de loiça ao qual acenam com um lenço no 13 de Maio. Como não consigo entender uma pessoa que acredita em anjos, que Jesus Nazaré fazia milagres como se fosse um ilusionista no Circo Chen ou que peça a Deus pela alma de alguém ou que acredite mesmo numa alma que vai para o céu.

Talvez seja isto que me fascina na religião. O facto de não a compreender. O seu verdadeiro mistério. Olho para a religião com o mesmo fascínio com que visitaria um hospital psiquiátrico ou com que olho para certos animais. Dou muitas vezes por mim a olhar para o rosto de um animal, pensando no que se passará dentro de uma possível consciência. E não consigo entender. Perante as pessoas religiosas acontece-me o mesmo. O que se passa na cabeça de uma pessoa que acredita em anjos? E que acredita que há um céu no qual andam por lá anjinhos com asinhas a dar a dar e alminhas esvoaçantes? Não consigo entender.

Depois, há uma segunda explicação. A religião, tal como um cemitério, é profundamente fotogénica. Os anjos, os cristos, as nossas senhoras, são profundamente fotogénicos. As cores, as luzes e as sombras das igrejas são fotogénicas. Nada daquilo me diz seja o que for mas, esteticamente, resultam muito bem.

Ora, como eu não sou fotógrafo mas apenas um turista que passeia com uma máquina a tiracolo quando viaja, tenho que me agarrar ao que é mais fácil. O bom fotógrafo é aquele que, a partir de uma insignificância, consegue fazer uma boa fotografia. A Micha é disso um bom exemplo. Eu não sei fazer isso. Limito-me, pois, a aproveitar o que a realidade, dentro das minhas limitações, me permite fazer.
Elementar, meu caro Ega.

10 comentários:

Margarida Graça disse...

Sou uma herética na família, porque fui educada no catolicismo e há muitos anos que não consigo cumprir ritual nenhum. E, no entanto, tenho um tio Padre que adoro e que semnpre respeitou a minha irreverência. Não trocaria este tio, por nada deste mundo!

O principal problema do homem é a falta de respeito pelo outro, independentemente do hábito que escolheu.

Ega disse...

Efectivamente, a Religião é uma coisa de difícil compreensão. E talvez resida aí a razão por que é tão (cegamente) seguida, seja ela qual for, se mórmom ou hinduista. Mas a sua importância e existência é deveras complexa, e provavelmente nunca a iremos entender completamente (também não é isso que se pretende).Uma coisa é certa, a religião, a par da fé, acompanhou o homem desde que começou a pensar e a ter consciência de si e da morte. Se para alguma coisa serve, será pelo menos para consolo da realidade e da triste existência humana. Eu, pela parte que me toca, também dispenso bem esse consolo.

Reconheço à religião muito poder e grandeza. E tal como tudo o que tem muito poder e grandeza, também ela está pejada de podridões e caracteres miseráveis. Mas são aquelas e não estas as coisas que me fascinam na religião.

De resto, apenas espero que nos continue a brindar com as suas fotos, sejam elas de motivos religiosos ou não.

Ah, e a propósito, o tal padre da deliciosa história com o seu avô, chegou a entrar?

JCM disse...

Eu diria, caro Zé, outra coisa sobre o teu fascínio com os brinquedos religiosos. São o sintoma de um tormento. Kant começa assim o prefácio à 1.ª edição da Crítica da Razão Pura: "A razão humana, num determinado domínio dos seus conhecimentos, possui o singular destino de se ver atormentada (sic) por questões, que não pode evitar, pois lhe são impostas pela sua natureza, mas às quais não pode dar resposta por ultrapassarem completamente as suas possibilidades"

Entre essas questões, como sabemos, está a existência de Deus e a imortalidade da alma. Eu diria que não é a arte, mas a razão humana que te conduz para questões "que não pode evitar" e que tu acabas por não poder evitar. Compensas o pensamento delas com a fotografia, mas elas lá estão. Um singular destino.


Além do mais, o texto de Kant é muito bem escrito. Eu li-o muitas vezes, como a todo o prefácio, vejo-o agora. Tenho-o todo riscado e escrito e apontado. Um singular destino, repito.

Abraço
JCM

Micha disse...

pois grande eu 'crescer' quero conseguir fazer fotos como voce!!!

marteodora disse...

Eu, que não aprecio o elemento religioso em fotografia, penso que elementar é olhar para esta, em particular, e concluir que está espectacular.

José Borges disse...

Essa relação com o religioso é-me muito familiar.

Ivone Costa disse...

Parte I

Deixai-me meter a foice nesta seara, embora não vos garanta resultados.
É fácil compreender: o facto de a Bárbara Guimarães dormir agarradinha ao Manuel Maria Carrilho não a tornou, de certeza, capaz de dissertar sobre o imperativo categórico. Apostava nisso as minhas sandálias Luís Onofre. Ora bem, o facto de eu dormir abraçada ao Zé Ricardo, não me torna sabedora de todos os segredos da alma dele, nem a Senhora Conservadora do Registo Civil o fez assinar tal claúsula.

Na post do Zé Ricardo a responder a nosso querido Ega ilustre, no comentário do referido e no comentário do Jorge há três níveis de verdade.

1.A verdade do Zé Ricardo. A não ser que lhe acontecesse uma epifania na praça 5 de Outubro e, como a estrada de Damasco é bem longe daqui, ele tinha de "resultar" assim. Não é só o avó maçon e agnóstico, é toda uma família que, tal como os Justos do Torga, seriam capazes de lavar uma nódoa com as lágrimas de Cristo.
Ele argumenta, depois, com a questão da extraordinária fotogenia dos motivos religiosos. Concordemos. Mas o Ega, moço habituado a litigâncias, diria: "Ai,sim? Como diz que os cemitérios também são fotogénicos, por que razão as fotografias de cemitérios são em menor número?" Por razões práticas. Entramos numa igreja, eu vejo a talha, o mármore embutido, a pintura. Vejo o que me interessa e vou ler para outro lado. O Zé Ricardo pode ficar lá 4 horas a fotografar todos os ângulos que ninguém o incomoda. Mas passar 4 horas a tirar fotografias num cemitério pode incomodar, pode levantar suspeitas, pode tornar-se desagradável.
2.Passemos à verdade do Ega. Neste momento eu sou "uma pagã triste com flores no regaço".Tinha mesmo de ser assim. São mais de 25 anos no meio de epopeias, tragédias, vinganças, destinos ,hybris, anankês e outras preciosidades literárias do género. Fiquei com um excesso de pathos, como diz o Zé Ricardo, de que não me livro. Deformação profissional.
É, por isso, que, de repente, o pensamento mágico sobe em mim com uma força que é preciso controlar com muito pulso.
Mas já tive a minha passagem pelos rituais católicos. Por razões puramente estéticas. Sabe quando saí de lá? Quando desapareceram as razões estéticas. Quando tudo aquilo deixou de ter, como dizia o Vergílio Ferreira um "ritmo encantatório".

Ivone Costa disse...

Parte II

Há já uns largos anos morreu, por estes lados, um senhor muito religioso e muito considerado na terra. A missa "corpo insepulto" seguiu todos os preceitos do Ritual Romano. Uma esplendorosa voz de soprano cantava, em latim, entre os diversos e muito longos momentos. À saída, não havia ateu que não comentasse: "Uma maravilha, uma maravilha". O Ega também gosta das fotografias de temática religiosa, não gosta?
Agora a questão do consolo. Eu, embora, tinha vivido sempre em Faro antes dos anos de Coimbra, nasci precisamente na fronteira entre o Alentejo e o Algarve. Gente do mais ateia que se pode imaginar. O meu avô materno, nunca deve ter entrado numa igreja. Como, escrevi num post lá para baixo, sempre ouvi os meus tios pedirem: A sua bênção, meu pai." E o meu avô respondia:" Deus Nosso Senhor te abençoe." Não estaria, por certo, a pensar em Deus. Tenho até a ideia de que ele se deveria considerar o único Senhor das terras em redor. (desculpa, Vô!)
Os meus pais, que se aproximam dos 80, tornaram-se nos últimos 10, de uma beatice atroz. Só lhes faz bem, andam distraídos. Mas, ó Ega, o homem comum só tem a consciência veemente de que é um ser para a morte quando vê o tempo a passar. É, por isso, que o Ega não precisa desse consolo.

3. Agora a verdade do Jorge. Pois, é claro. O Zé Ricardo queria que o puro olhar que ele mantém sobre as coisas lhe retribuísse uma explicação concreta, plausível e concreta. E não desiste. Se ele vê uma flor, quer saber porque razão a flor é uma flore nada de simbologias, porque o simbólico é invisível ao olhar filosófico. E nem todo o Universo está disponível para lhe dar explicações.
É curioso: ainda hoje, de manhã, ouvi, na Antena2, Bruno Ganz declamar (um deslumbramento!) Hölderlin, seguido das traduções de Maria Teresa Dias Furtado. (Já sei que vou andar por ali uns tempos o que é uma barbaridade com tudo o que tenho para fazer.
E ouvi lá na Antena2:
"Também os olhos límpidos vêem as sombras".
O Zé Ricardo vê. E não desiste.

E agora vou dormir, que tardíssimo. Estou a ver que já não é esta noite que eu começo a dominar a questão da "liberdade negativa" e, ainda por cima, amanhã tenho de ir a correr para a escola sem ter tempo para pintar os olhos, assunto que tem tanta importância para mim como o Isaiah Berlin para o Zé Ricardo.

Ivone

José Ricardo Costa disse...

Ega, claro que o padre Búzio sabia que só poderia visitar o meu avô na condição de amigo.

Margarida Graça, hoje também sou amigo de um padre com quem tenho tido o enorme prazer de partilhar a mesa. O problema do respeito, tenho-o resolvido há muito tempo.

Marteodora, pega na máquina e vai para as igrejas. Se lá entrares com o mesmo olho clínico com que entras na biblioteca de TN, tens muito trabalho pela frente.

José Borges, como cidadão (que palavra horrível, mas, enfim) acredito e espero que a sua relação com a religião vá ficando cada vez mais depurada.

Micha, não digas disparates!

Ivone, a gente depois conversa...

JR

addiragram disse...

Em primeiríssimo lugar, fez uma foto "divina", que faz inveja a qualquer místico!
E agora vamos à tertúlia...
Temos em comum o ateísmo convicto, que muitos poderão considerar ser uma espécie de religião...O meu pai, filho de um maçon, a minha mãe, cortando com tudo o que sentira como hipocrisia. Assim sendo, não fui baptizada, o que na época, era caso raro. Assumia esta minha condição com orgulho mas com alguma solidão. Quando as coisas me corriam a descontento lá dizia eu para os meus botões: se isto mudar torno-me religiosa....Mas a verdade é que esta "promessa" nunca era cumprida, representando mais a minha curiosidade pelo desconhecido que povoava as rotinas das minhas amigas. E é aqui que entra a fotogenia dos cemitérios e das Igrejas...Quando comecei a andar com a minha primeira maquina fotográfica também fazia muitas digressões pelos cemitérios. Lugares para mim, ainda tão longínquos,quanto a religião tb se me afigurava.Considero essa atracção semelhante à que sinto quando noutro país mergulho em manifestações de outro tipo de cultura. Sinto-me a olhar com olhos "estrangeiros" e, por isso mesmo, vendo melhor. O conhecido à medida que convivemos com ele torna-se banal. Os não frequentadores das Igrejas têm, inevitavelmente, um fascínio por elas. Cá em casa há quem me chame a papa-Igrejas...guis