21 julho, 2009

ANJO OU DEMÓNIO?

Muitos erros cometi na educação do meu filho. Alguns me hão pesar nos ombros para sempre. De duas coisas posso descansar: nunca lhe faltei com apoio quando ele tem precisado, nunca lhe faltei com um bom par de estalos quando ele o mereceu.

Que vem isto, agora, a propósito? Passo a explicar: ontem, à tarde, foi-me inevitável a ida a um hipermercado. Sabe bem que me conhece que não há tarefa que mais abomine. Entro lá com uma lista de dez coisas essenciais e fujo de lá apenas com cinco ou seis. Detesto. Ontem, até tinha corrido bem. Estava na caixa, pronta a pagar quando a minha atenção é chamada por uma gritaria que parecia vir do fundo das trevas.

Calma, era apenas a birra de uma criancinha. Uma mulher nova empurrava o carrinho das compras. Eu sei, podemos errar muito quando criamos estes estereótipos. Mas ela tinha o ar de quem, após quatro de universidade, ainda apenas conseguiu um trabalho das nove às sete, a ganhar 600 euros. O cabelo não tinha retoque de cabeleireiro há meses, nos olhos nem risco de lápis. Diria que tinha um ar de desistente. Atrás, a referida criancinha fazia a mais tremenda das birras. Guinchava, urrava, zurrava, crocitava, ululava.
Mas pensam que falo de uma criança banal, das que se vêem todos os dias na rua? Não. Eram três ou quatro anos lindos, uma auréola de cabelo louro encaracolado, um querubim barroco. Uma criança linda e perversa. Queria qualquer coisa que a mãe, pelos vistos, não lhe dava. Como se não bastasse, de dois em dois metros, atirava-se para o chão e batia com os pés e as mãos como se chapinhasse numa piscina. Depois, lá dava mais uns passos e novo mergulho e nova gritaria em crescendo.

Os restantes compradores mantinham-se impassíveis, como ditam as regras. Quando o raio do puto se atirou para o chão junto à caixa onde eu estava quase a despachar-me, tive uma vontade imensa de levantá-lo no ar, mesmo em frente à minha cara e olhá-lo com um olhar de bruxa antiga. Garanto que o monstro se havia de calar.

Mas o Zé Ricardo diz, e tem razão, que eu não tenho uma mente moral, tenho uma mente jurídica. Pensei, de imediato, no Código Penal: em qualquer alínea, o acto que eu tencionava praticar deve ser crime. Contive-me.

E lá foram. A mãe conseguiu metê-lo no elevador com o carro das compras e eu adivinho o resto, a viagem até casa, o arrumar das compras, o fazer do jantar que o fedelho, provavelmente, iria rejeitar, a roupa para lavar, a roupa para passar. E, muito provavelmente, nova birra antes de adormecer.

O que me preocupa, ainda, é que, daqui a onze ou doze anos, este tipo vai estar na minha frente numa aula do 10º ano, com as mesmas mesmas birras e uma insolência que os anos apuraram. E, provavelmente, muito desculpado por toda a gente. Sofreu um traumatismo terrível: quando tinha dez anos, a mãe suicidou-se. Incapaz de suportar as exigências, as fitas e as chantagens do anjinho, que refinara ao crescer, tomou o frasco de ansiolíticos que a médica de família lhe prescrevera. Era para tomar apenas um naqueles dias em que não aguentasse mais. Um dia, soube que nunca mais iria aguentar mais e tomou-os todos.

A violência doméstica tem contornos insuspeitos. Não sei se, para esta, ainda haverá remédio.

Mas sei quem são os culpados dela.

6 comentários:

addiragram disse...

Traumatiza-se de muitas maneiras-frustrando em excesso e gratificando em excesso.Estas últimas gerações de pais caiem, com maior frequência, nesta última hipótese. Quem trabalha na área da saúde mental infantil e juvenil encontra,dia a dia, os dois extremos.Uma hipótese especulativa é que essa mãe se tivesse visto ao espelho nesse "anjo",venerando-o como se um pequeno deus se tratasse...O caminho fica aberto a toda a espécie de arrogâncias destes pequenos ditadores.

Mafalda disse...

Madrinha, se algum dos futuros pirralhos insolentes de décimo ano fizer birra, fazes olhos de bruxa antiga! Julgo que numa sala de aula isso não será considerado crime. :)

Nefertiti disse...

Umas palmadas bem dadas naquele rabo!

José Borges disse...

Que bem me fizeram as que eu levei. Só tenho a agadecer a toda a gente desde a minha professora primária ao meu pai passando pelo meu irmão e a minha avó sem esquecer os graduados do IMPE. (Soy un picolo...)

(O que me irrita, de qualquer modo, é eu ir de férias e o mundo continuar a funcionar. O que eu andei a perder...)

jl disse...

Algumas notas, talvez pela rama (para não entrar no doloroso âmago da questão: por exemplo, o difícil que é sermos pais ou avós, sobretudo hoje):
- registei: "tinha um ar desistente"! (a minha máquina interior disparou logo o retrato);
- de entre a vociferação da bicharada... Não esqueceu o corvo;
- O olho psicanalítico (clínico) do ZR;
- registei também: "a violência doméstica tem contornos insuspeitos".

Uma curiosidade final: quando venho ao PP, ao ler um post tento adivinhar, o mais perto possível do seu início, quem o escreve. Talvez tenha errado uma vez... Não me lembro.

estela disse...

@jl

:) eu também faço isso :)