20 julho, 2009

ALBERTO JOÃO JARDIM


Podemos aproveitar a riqueza semântica da língua portuguesa para adjectivar condignamente o nosso insular Sandokan: javardo, vesano, pimpão, troglodita, lapardeiro, grunho, matuto, alarve, esfola-gatos, tiradentes. Pior ainda: Valentim Loureiro.

Alberto João representa a negação da teoria do bom selvagem de Rousseau. Tivesse este conhecido o Tarzan funchalense, e a sua teoria nunca teria ido avante. Sendo Jardim imune aos apelos da civilização e a quem a designação de homo sapiens só com algum esforço se poderá aplicar, facilmente se provaria quão pouco idílico seria esse modelo de humanidade defendido pelo filósofo.

Se por acaso lhe vier parar às mãos um livrinho de Diderot escrito no século XVIII, chamado Suplemento à viagem de Bougainville, baseado nos relatos da dita viagem, pense também que, caso o navegador Louis de Bougainville não tivesse vivido no século das luzes, mas no século XX, e se a viagem por si efectuada não fosse a uma exótica ilha do Pacífico, mas à ilha da Madeira, Diderot não teria escrito o que escreveu.

Diderot quer mostrar que existem primtivas formas de vida social por esses oceanos fora muito mais puras e felizes do que as nossas. Imaginemos agora o navegador francês aportando no Funchal e o primeiro contacto estabelecido com o povo indígena ser logo, por azar, através de tão elementar figura. Arrisco, portanto, uma tese: tivesse Alberto João vivido no século XVIII e a história da filosofia não teria sido a mesma. E se tivesse vivido igualmente noutros séculos, maiores ainda seriam as diferenças: Platão nunca se lembraria do mundo inteligível, não teria havido cogito cartesiano, nem imperativo categórico kantiano. Nem Epicuro aceitaria jamais dar as suas lições num jardim…

Quem já ficaria contente, se viesse hoje ao mundo, seria Charles Darwin. Se em vez de ter chegado às ilhas Galápagos a bordo do Beagle, tivesse chegado ao Aeroporto do Funchal através de um Boeing, teria rapidamente confirmado que, após tanto tempo, a sua teoria continua actual.
Iria descobrir nas Galápagos de Portugal que a sua teoria não se limita apenas a certas espécies como os tentilhões pica-pau, mas também à política, nomeadamente no que diz respeito à arte de se conservar eternamente no poder. Este darwinismo político-estratégico teria assim uma fértil base de estudo.
Descobrir-se-ia que, na política, encontramos um terreno ambíguo que congrega em si o racional e o para-racional, a intuição e a inteligência, a simpatia e a esperteza.

Há animais que, vivendo na selva, no deserto ou no mar, morreriam precocemente se tivessem mais inteligência: o que lhes falta no córtex cerebral sobra-lhes na acuidade visual, acústica, olfactiva. O que lhes falta a nível do pensamento conceptual sobra-lhes na força muscular ou na capacidade de se disfarçarem no meio das ervas ou de corais.

Já o que permite a sobrevivência social do homem é a sua capacidade racional, o conhecimento, a informática, o saber lidar com um telemóvel e um comando de televisão. Se há homens que vencem na selva da política, que ficam para a história, que nos marcam, não é, porém, devido à sua inteligência mas a instintos de sobrevivência, crescimento e de adaptação, os quais, como em Alberto João, têm o mérito de conseguir aliar a força bruta à inteligência, o biológico ao social.

A velha noção aristotélica de animal político teria hoje um sentido completamente diferente.

3 comentários:

josealbergaria disse...

Caro,
Na lista dos adjectivos que utilisa só lhe retirava o "alarve" (al.'arab, o mesmo que árabe), corruptela que, nos tempos que correm é um pedaço incorrecta, politicamente e etnicamente falando.
Abraço,
J.A.

Mafalda disse...

Devo considerar-me sortuda, pelo que li deste post! Se de facto Darwin tivesse estado em território madeirense aquando da existência de Alberto João, seria o último quem eu teria observado em estado pseudo-natural durante a exposição sobre o famoso investigador na Gulbenkian em vez das adoráveis suricatas, e isso, decerto, não seria nada agradável. Apesar de ter consciência de que esta é uma situação meramente hipotética, consigo, ainda assim, sentir-me absolutamente aterrorizada.

addiragram disse...

Há longos dias arredada destas visitas, volto a este blog com gosto.Para começar, achei a crónica um mimo, apetecendo-me começar por dizer que bem me parecia que a a teoria do bom selvagem teve, sempre, poucas pernas para andar... Como adoro introduzir alguma turbulência, lembrei-me do que ouvi a uns amigos madeirenses. Segundo eles, para compreender este espécime será necessário remontar à história da Madeira, em particular à revolta da farinha e, posteriormente, à revolta da Madeira.O centralismo do comércio dos cereais, decretado por Salazar, para fazer face à grande depressão, gerou uma enorme revolta na ilha pelo aumento do preço do pão.
Assim, Alberto João, não seria mais do que a "corruptela" desses valentes revoltosos...Entretanto vou ver se vou ao dicionário à procura de mais um contributo.:)