14 julho, 2009

14 DE JULHO

Hoje, dia 14 de Julho, por mera coincidência, estive a trabalhar sobre um pequeno ensaio de I. Berlin, chamado Political Judgement incluído no livro The Sense of Reality. As questões que servem de ponto de partida ao ensaio são as seguintes: o que significa uma sabedoria política? Ou ser politicamente competente? Há uma «ciência política» tal como há uma Biologia ou uma Química? Será que, na realidade política, existem leis, invariáveis, mecanismos inexoráveis e previsíveis, permeáveis ao exercício da razão?
A resposta de Berlin é absolutamente veemente: não!

É por isso que, sendo ele herdeiro de um certo iluminismo, arrasa por completo todas as pretensões racionalistas de acordo com as quais é possível reduzir tudo ao poder da razão. Pior ainda: aplicar tais pretensões. Lenine, Estaline, Hitler são, para o filósofo de Oxford, homens que quiseram fazer política com uma doutrina colocada na mesinha de cabeceira. Homens que olharam para as suas sociedades e não viram outra coisa senão um laboratório onde poderiam aplicar o seu programa, a sua agenda racional. Para Berlin, os grandes pesadelos políticos do século XX, se bem que por razões completamente distintas, continuam a ser herdeiros da fé iluminista segundo a qual é possível construir uma sociedade a partir de um modelo racionalmente elaborado no ateliê científico do político enquanto sábio, enquanto vidente iluminado, enquanto contemplador de arquétipos gerais e imutáveis.


Ora, para Berlin, a realidade não é assim. A realidade, a verdadeira realidade é multicolor, evanescente, contraditória, fugidia e demasiado feita de misturas para poder ser catalogada como as borboletas.
É por isso que Berlin prefere políticos como Colbert, Washington, Talleyrand, Disraeli, Bismarck, Churchill ou Roosevelt. Homens que, mais do que matemáticos ou engenheiros da política, olharam para a política através da intuição, do improviso, de uma sabedoria prática e não doutrinária.


É por isso também, considera, que romancistas de águas profundas como Tolstói ou Proust, estando atentos às pequenas partículas atómicas do real, ao invisível, aos caprichos da alma, entendem muito melhor a realidade do que fanáticos racionalistas como Holbach, Helvétius ou La Mettrie, três dos principais inspiradores da revolução da qual hoje se comemora o aniversário.


Infelizmente, as críticas de Berlin, continuam actuais e podemos encontrá-las onde menos se poderia esperar: na escola, por exemplo. Há um robespierrezinho escondido em muitos dos nossos sociólogos-engenheiros. Que adoram brincar às revoluções depois de muitas histórias lidas nos departamentos de sociologia e de ciências da educação.

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