17 junho, 2009

YOU


1.Se eu disser a alguém com quem não tenho uma relação de intimidade: “O que é que você quer?” estou a ser grosseiro. Devo antes dizer “O que deseja o senhor?” ou simplesmente “o que deseja?”
Perguntará um estrangeiro, confuso: mas, então, o você não é a palavra usada pelos portugueses com pessoas que estão numa posição superior ou formal, contrariamente ao tu, usado para os mais íntimos?
Sim, é verdade. Mas um aluno não pode dizer a um professor: “Você não se importa de adiar o teste?” ou a empregada a um cliente: “Você quer pagar com cartão ou dinheiro?” É grosseria e falta de educação. A solução correcta é: “O professor não se importa de adiar o teste?” ou: “O senhor deseja pagar com cartão ou em dinheiro?” Mas uma tia de Cascais já pode dizer: “Então, Xaxá, você reparou no vestido da Kiki na festa da Cacá?” Porque o você, neste caso, tem um estatuto híbrido. É um tu, mas um tu estilizado, um tu que não cai na dimensão plebeia e proletária do tu enquanto tu.
O mesmo se passa quando a mãe diz ao filho: “Então, Salvador, você não sabe que não pode dar pontapés na perna da Otília?” Ou a mulher ao marido: “António, você é um querido quando me oferece jóias!”

2. Veja-se agora a seguinte situação: “Gostei do livro que o João escreveu!” Parece que, em termos gramaticais, estou a usar a 3ª pessoa do singular. Mas em Portugal pode não ser bem assim.
Eu posso dizer o “João escreveu” estando a falar directamente para o João, no caso do João ser uma pessoa ao mesmo tempo distante e próxima. Demasiado próxima para lhe chamar doutor ou senhor, mas suficientemente distante para não poder tratá-la por tu. Para além disso, tratar uma pessoa pelo seu nome em vez de ser por tu ou você, denuncia claramente um estatuto urbano. Não se imagina, por exemplo, durante a vindima, um trabalhador rural a dizer para outro: “Então o Manel não sabe que não é assim que se faz a cura das cepas...?”

3. Portugal deve ser ainda o único país da Europa onde as pessoas se chamam “doutor”, “engenheiro” “arquitecto” ou “brigadeiro” em vez de Pedro, Carlos ou Luís. Alguma vez se ouviu a expressão “Dr. Gordon Brown”? Não. O que ouve é “Mr. Brown”, e quando lhe perguntam algo, dizem: “Mr. Brown, tell me what do you think about...?”. Este you, tanto serve para fazer uma pergunta ao 1º ministro, como ao professor ou ao vizinho do 3.º esquerdo. É pois um you socialista. Num país que acabasse de se tornar verdadeiramente marxista-leninista, a primeira ordem do partido seria a de acabar com uma gramática classista e burguesa, instituindo a ditadura do you.

É evidente que, em Portugal, por uma questão de pudor, uma pessoa não diz que se chama Engº Antunes ou Dr. Almeida. Mas sabe que é assim que vai ter que ser tratada: “Então, Sr. Engenheiro (em vez de Sr. Antunes), quando é que o projecto fica pronto?” Mesmo num ambiente informal, como uma jantarada, o título agarra-se à pessoa como uma lapa à rocha: “Ó engenheiro, tire mais uma coxa de frango” e nunca “Ó senhor Antunes, tire mais uma coxa de frango”. O que não deixa de ser estranho, sabendo nós que “senhor”, em Portugal, é um sinal de respeito e de distância social.
Há tempos senti algum desconforto ao falar com uma arquitecta. Insistindo em tratar-me por “doutor”, senti-me também na obrigação de responder na mesma moeda. O que não é fácil, por causa da complexidade silábica e fonética da palavra “arquitecta”. De facto, ter de dizer de 10 em 10 segundos “Então a senhora arquitecta...” ,“Mas a senhora arquitecta...”, “Eu telefono então mais tarde à senhora arquitecta...” deixou-me completamente extenuado.

4. Imagine-se agora o seguinte diálogo entre professor e aluno:
“– Olha Paulinho, já falei com a tua professora de Ciências, podes ficar descansado!”
– Ah, ainda bem, e o que é que ela disse?”
Ora bem, o aluno não deve dizer "ela", apesar de a professora de Ciências não ser propriamente o Chuck Norris. O que o Paulinho tem de fazer é muito simples: basta tirar o ela, ficando: “Ah, ainda bem, e o que foi que disse?” É como mudar de Chelas para a Avenida de Roma. Embora a nível do género, um homem seja ele, e uma mulher seja ela, já a nível da complexa gramática social portuguesa, nem sempre se pode ser invocado como sendo ele ou ela, sob pena de se ser mal-educado.

5. E no que diz respeito à noção social de tio? Também aqui há uma clara diferença entre classes, embora a raiz seja a mesma. Dizer, por exemplo: “Então tio, já comprou o Audi à Pitá para ir às aulas de Yoga?” (a alguém que é tanto seu tio como Napoleão seu avô), não é o mesmo que perguntar: “Então ti Manel, já deu de beber à mula?”. Ou seja, a pequena diferença entre tio e ti mostra uma profunda fractura sociológica. Se um urbano vai a uma aldeia e trata alguém por ti, este ti pode ser afectivo e carinhoso, mas traduz sempre uma distância social relativamente a alguém que não é do seu meio.

Podemos pois afirmar que se vive, em Portugal, um sistema linguístico que, pela sua subtileza e complexidade, deixa baralhado qualquer sociólogo estrangeiro, ainda que habituado a estudar o sistema de castas indiano. Um Portugal docemente medieval e com hierarquias feudais mal disfarçadas.

5 comentários:

addiragram disse...

Uma análise meticulosa e exemplar desta língua que temos.E o problema é que quando alguém não utiliza essa diversidade a que no habituámos não deixamos de reparar. Não me esqueço de ter tido vontade de dizer a uma empregada de um consultório de dentista que o "você" era lá pra casa...

Fred disse...

Está de facto excelente este texto! Muito bom mesmo!

PC disse...

Pergunta: "Ricardo, o Ricardo admite que de vez em quando dá umas frangadas?"
Resposta (do Ricardo): "O Ricardo é um ser humano e como todos os seres humanos está sujeito a errar. Mas eu sei que há muita gente mortinha por me tramar".

Esta nomeação de si próprio na 3ª pessoa é, ao que sei, uma especificidade nacional.

José Ricardo Costa disse...

Caro PC, boa observação, escapou-me essa!

JR

José Borges disse...

De facto, um texto extraordinário.

Uma vez que tratei a minha avó por você, disse-me no seu jeito de morgada transmontana: 'você é estrebaria!'. E uma vez que falava de minha mãe referindo-a como 'ela', a minha avó atira: 'ela é uma cadela, diz antes «a minha mãe»'. Enfim, quem sabe sabe.