08 junho, 2009

ULISSES

Há muitos anos, um amigo meu alemão que vivia na casa onde eu me encontrava a passar férias, andava a ler a versão alemã do Ulisses. De vez em quando, dava com ele a rir às gargalhadas. Outras vezes, tinha mesmo que desabafar, não contendo o seu entusiasmo relativamente à leitura da obra. Dizia que era a melhor coisa que havia lido e, apesar de jovem, já tinham sido muitas. Eu, que do Spiegel contentava-me apenas com as imagens, assistia àquilo roído de inveja.
Algum tempo depois, chegou finalmente a edição portuguesa. Eu, claro, fui logo a correr para a comprar. Não sei se terei conseguido ler 10 páginas. Um cenário desolador, uma enorme frustração. Fiquei então mais descansado quando comecei a ter algumas informações acerca da péssima tradução. Ok, o problema não estava em mim mas na tradução. Tentei, entretanto, o Retrato do Artista Quando Jovem. Aqui sim, fiquei rendido. Depois disso, aliás, ainda hoje, sempre que alguém se queixa do Ulisses deito sempre alguma água na fervura com o Retrato, dizendo que este é a melhor introdução à leitura do primeiro. E é verdade. Há elementos narrativos e psicológicos do Ulisses ( conheço por "ouvir dizer") que se encontram claramente no Retrato e muito mais legíveis.

Mas a verdade é que, mesmo depois da tradução de João Palma Ferreira, a minha relação com o texto continuou a ser difícil, talvez por causa das resistências que acabaram por ser tão grandes que fui mesmo obrigado a pensar que se haviam tornado irreversíveis.

Até ter descoberto esta fotografia. Uma fotografia de Marilyn Monroe lendo a obra de Joyce. Que, ao contrário de mim, está a chegar ao fim. E veja-se o ar concentrado dela na leitura. Caramba, se ela lê por que razão não hei-de eu ser capaz de o fazer? Em suma, graças a esta fotografia, uma obra que eu já tinha colocado no meu sótão bibliográfico passou de novo a fazer parte dos livros-à-espera-de-serem-lidos.

Thanks, Marilyn!

7 comentários:

estela disse...

:)

e quando acabar pegue n' "o homem sem qualidades"!

http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=998015

é a versão austríaca dos livros aparentemente impossíveis de ler que muita gente tem em casa ... embora eu não acredite que a marylin tenha sido "apanhada" a lê-lo.

:)

Ega disse...

Li o Ulisses (da Livros do Brasil) ainda no tempo da boa vida da faculdade (talvez a melhor época na vida de um gajo para se ler os clássicos).

Lembro-me de ter ficado pasmado com a possibilidade de uma obra assim ter sido escrita. Após a sua leitura não falava de outra coisa aos meus amigos mais chegados (e que aborrecido devo ter sido). Cheguei mesmo a falar que a obra era comparável à muralha da china, se esta tivesse sido feito por um só homem. Também por esse motivo, a obra maior de Joyce é uma obra pretensiosa.

Claro que se trata de uma obra de tradução e leitura muito difíceis. Porém, é uma obra essencial e de um espanto incomparável.

De resto, e atendendo ao que conta no post, talvez não seja boa ideia ler uma obra deste calibre logo de seguida à Guerra e Paz. Aconselho a sua leitura para umas férias.

José Ricardo Costa disse...

Li há muitos anos o 1ºvol de O Homem sem Qualidades, na velhinha tradução dos Livros do Brasil, uma edição pré-Barrento, portanto. Gostei mas depois fartei-me. Não acho que seja impossível de ler. Até pelo contrário, penso tratar-se de uma leitura fluida. Mas meteram-se outras coisas pelo caminho e pronto, fiquei por ali.

Caro Ega, obrigado pela sugestão. é bem capaz de ter razão, passar de Guerra e Paz para aquele longo dia de Dublin, talvez não seja muito aconselhável. Acontece que, de qualquer modo, já tenho outras coisas em lista de espera fora aquelas pequeninas que se vão metendo pelo meio, como aconteceu, há tempos, com a Mandrágora de Maquiavel. Um dia destes, vou ler Le Burgeois Gentilhomme do Molière. Coisas cá da minha vida de estudante...

JR

José Borges disse...

Eu não sei se ela lia mesmo os livros, mas se lia então não lhe faltava bom gosto:

http://osilenciodoslivros.blogspot.com/search?q=marilyn

estela disse...

nunca li r.musil, mas na altura em que saiu uma edição comemorativa do ulisses (2004, 100 anos sobre o nascimento de joyce) aqui falava-se muito de ambos os livros e de que ulisses e o homen sem qualidades pertenciam ao grupo de livros que toda a gente conhece, muitos têm em casa e nunca ninguém leu. Um exagero naturalmente, como o seu post confirma ;)

não fui suficientemente clara, e como li o comentário subsequente ao meu, devo dizer: ainda bem que já tinha lido um bocado de musil há uns anos. Porque, como diz Ega: talvez não fosse o livro ideal para ler depois de guerra e paz :)

Anónimo disse...

Ouvi falar da obra de James Joyce nos meus tempos de faculdade. Fiquei com curiosidade e há primeira oportunidade procurei ler a obra. Comecei e desisti no final do primeiro capítulo.

No Verão seguinte voltei a agarrar-me à leitura e realizei nova tentativa. O sol e a areia convenceram-me a sestas prolongadas, nunca conseguindo ultrapassar mais de duas páginas por dia. Com o acabar das férias acabou-se a leitura das 20 páginas inteirinhas.

A terceira tentativa ocorreu uns anos depois, seguida de fracasso total. Desisti do "Ulysses", para muita pena minha. O livro promete, mas exige muito do leitor, e a disponibilidade mental nem sempre se compadece com a exigência da leitura.

Qualquer dia volto a tentar...


Luis

addiragram disse...

Comecei e...larguei,comecei e larguei...mas li o magnífico "Retrato".
Qualquer dia, qualquer dia...