26 junho, 2009

TRANCADOS NO ARMÁRIO


Quando eu tinha a idade do meu filho mais novo, havia só dois canais de televisão. Para poder ver desenhos animados, tinha que esperar pela hora de almoço e antes de jantar, durando cerca de meia hora. Daí a enorme ansiedade com que esperava por eles. E a alegria quando, às vezes, apareciam sem estar à espera.Depois, nunca sabia o que iria ver: o Bugs Bunny? O Speedy Gonzalez? O Bip Bip? Via o que aparecia e, o que aparecia, era o que via.

Há dias, reparei que o meu filho passou a ver menos televisão e a estar mais tempo no computador. Só que não era a jogar ou, simplesmente, navegar, mas a ver desenhos animados. No You Tube ou em sites temáticos onde se podem ver filmes tal como na televisão.

Ora, o seu mundo é completamente diferente do meu quando tinha a idade dele.

Eu fazia parte de um cosmos que me transcendia. Era um átomo que vivia em função de uma ordem na qual me integrava e fora da qual não tinha qualquer autonomia. Não era que eu escolhia os horários, não era eu que escolhia os filmes. E, para os ver, tinha que me organizar para, àquela hora, poder estar disponível. E via o que o programador decidia que eu iria ver. A satisfação dos meus desejos não era incondicional mas limitada por uma ordem que lhe impunha as condições, o ritmo e a intensidade.

O meu filho, pelo contrário, vê quando lhe apetece, o que lhe apetece e durante o tempo que lhe apetece. O filme, seja este qual for, está lá sempre à sua espera. Mesmo na televisão, tem à sua disposição vários canais de desenhos animados durante 24 horas por dia.

Isto pode parecer um pormenor irrelevante. Mas, juntamente com outros pormenores irrelevantes, ajuda a compreender o que separa a minha geração da actual. Arrisco a seguinte tese: são pormenores como este que podem ajudar a entender melhor o individualismo, as exigências, a prepotência, a arrogância de tantos garotos que vivem num mundo já previamente organizado por si e do qual, naturalmente, não desejam sair.

Jornal Torrejano, 26 de Junho de 2009

1 comentário:

addiragram disse...

Muito bem visto. Eu acrescentaria a isto a culpabilidade dos pais que, cada vez mais impossibilitados de ter disponibilidade interna para estar, para conversar, para negar( quando é preciso)correspondem a todas as solicitações materiais que lhes são feitas. Muitas vezes a presença nesses pais de conflitos internos com os próprios pais(que não foram elaborados) fazem-nos ser uma espécie de reverso cego do que lhes aconteceu. A frustração, em doses adequadas, é essencial a qualquer desenvolvimento equilibrado.