10 junho, 2009

TEMPOS DIFÍCEIS?


Estive a ler o programa de um festival de filosofia realizado no País de Gales no passado mês de Maio.

Na apresentação de um dos colóquios diz-se o seguinte: "It was the best of times, it was the worst of times, but above all it was an age without morality. Do we live in a time without morals? Is an absence of morality damaging to the fabric of society? Or is this an inevitable response to the vacuum left by organised religion?
Economist Richard Bronk, political theorist Phillip Blond and philosopher of religion Chris Hamilton consider if we are facing moral anarchy and whether we need to find a solution."

Existe uma enorme tentação em olhar para o passado e encontrar sempre uma autoridade moral que já não existe. Imaginemos que aquele texto é lido por um historiador daqui a 1oo anos. O que irá ele pensar do nosso tempo?

Mas será que o nosso tempo é assim tão desprovido de referências morais? Era a moral, há 100 anos, mais consistente do que hoje? Havia há 100 anos mais respeito pelas pessoas? Pelos trabalhadores, pelas pessoas de classes mais desfavorecidas, pelas mulheres, pelas crianças, pelos deficientes, pelas pessoas que pensavam pela sua própria cabeça, pelos comunistas, pelos homossexuais? Havia mais justiça na Inglaterra vitoriana do que hoje?

Ok, se a ausência de moralidade significa ausência de catequese e de bíblica lavagem ao cérebro, estamos de acordo. A moral, nesse aspecto, já terá tido melhores dias. Mas será que esses tempos de bíblica moralidade criaram uma sociedade mais justa e igual? Os pobres da catolicíssima França de Luís XIV viviam melhor do que nestes heréticos tempos em que vivemos? Uma criança que trabalhasse nas minas de carvão da religiosíssima Inglaterra da moral e dos bons costumes vivia melhor do que uma criança que hoje é obrigada a ir à escola? E as mulheres sem direitos? E os homossexuais que eram presos só pelo facto de o serem? E a repressão sobre a vida sexual dos indivíduos fazia-os mais felizes do nestes tempos de liberdade sexual? Eu não estou a dizer que a liberdade sexual traz necessariamente felicidade. Digo, sim, que não traz necessariamente infelicidade, o que já não acontece com a repressão sexual.

Não me lixem.

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