03 junho, 2009

O TEMPO DAS AMORAS

Há misérias e grandezas no dia-a-dia de uma turma de Latim. Estávamos hoje lá para o fim da Bucólica I que eu não sou de modas e não acabo estes dois anos sem uma passagem pelos pesos pesados. Íamos em pone ordine uites, quando, lesta, uma mocinha diz : "Põe a vida em ordem." Tive um ataque de fúria. Eu é que devia ter posto a vida em ordem quando me passou pela cabeça vir ensinar coisas a quem não as quer aprender, eu é que devia ter posto a vida em ordem quando resolvi ser professora em vez de conservadora do registo predial. (Eu sei, José Borges, eu sei.) Mas a fúria dissipou-se. Aqui para nós que ninguém nos ouve, aqueles já fizeram muito. Desenrolam uma perifrástica passiva num ápice, tratam por tu a construção pessoal, vêem, à vista desarmada, os ablativos absolutos que os espreitam ao longo dos textos, traduziram Cícero, Marcial (em versão ad usum delphini que não me meto por atalhos ...), Séneca e outros que tais.
Estava com algum receio quando estendi Horácio na frente deles. Não lhes falei do carpe diem e tiveram uma reacção muito engraçada quando lá chegaram, a reacção de quem vê pela primeira vez uma pintura ou um monumento de que sempre ouviu falar.
Esta é a tradução que fizeram, depois de muita ajuda, de muito insulto pedagógico, de muito avançar e retroceder. O "ínvido" foi contribuição minha, o resto é deles:

Não perguntes, Leucónoe, não é bom sabê-lo, qual o fim
que para mim ou para ti os deuses guardaram. Nem andes
a investigar os números da Babilónia. Como é melhor sofrer o que quer que aconteça!
Quer Júpiter nos tenha ainda atribuído muitos Invernos,
quer o último seja este que agora desfaz as ondas do mar Tirreno
contra os rochedos aqui defronte, sê sensata e filtra os vinhos,
não alimentes uma esperança tão longa para um espaço tão breve.
Enquanto conversamos terá fugido o tempo ínvido,
aproveita este dia, preocupada o mínimo possível com o de amanhã.

Os alunos continuam a valer a pena. Não há mais nada na escola que valha a pena. Quero que a comunidade educativa, os projectos, os encarregados de educação e o albino encarregado dos encarregados de educação, a ministra e os sequazes dela vão todos para o Inferno. Ou melhor, que vão para o raio que os parta e que fiquem por lá. Para sempre. Que é como quem diz ad saecula saeculorum.
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2 comentários:

José Borges disse...

Ivone, uma conservadora do registo predial nunca escreveria este texto.

Eu ando a aprender latim expressão a expressão, lendo obras bilíngues, 'verbi gratia', Virgílio traduzido pelo Agostinho da Silva. Sim, porque as novas traduções, aclamadas, da Cotovia, ocultam o texto original... Mas é uma grande frustação minha, esta de não saber latim.

addiragram disse...

E onde ficou o latim que eu aprendi? Está algures, talvez, num olhar diferente sobre um texto...