01 junho, 2009

O SEXTO SENTIDO


Eu olho para esta fotografia de Julia Galán e apetece-me escrever sobre ela. Acho que tem um enorme potencial narrativo ou póetico, permite, a partir de si, construir um texto literário que, dependendo da imagem, acaba por transcender a própria imagem.

Só que, ao mesmo tempo, não sou capaz de escrever esse texto. Sinto o desejo de o fazer mas não sou capaz de o fazer. Haverá, à partida, uma primeira explicação para isso: a minha incapacidade ou inépcia. Não tenho talento para o fazer. Mas fosse o meu desejo o de alguém que tivesse esse talento, a história poderia ser outra. Trata-se de uma explicação plausível.

Mas poderá haver ainda uma outra (sem anular a anterior!). Não consigo escrever por não precisar de conseguir. Vou tentar explicar. Eu sinto o desejo de escrever sobre a imagem. Mas não será esse desejo já uma forma de inteligibilidade? Nós temos o desejo de comer, porquê? Porque temos fome. Ora, o desejo de comer não é o mesmo que o desejo de comer pão com queijo ou uma maçã. O desejo de comer basta-se a si próprio, não necessita de um objecto comestível. A fome não é fome "de quê". Eu posso explicar por que razão estou com desejos disto ou daquilo mas não explico por que razão tenho fome.

Ao ter o desejo de escrever sobre esta fotografia, esse desejo já pode conter a minha compreensão da fotografia que me leva, depois, a querer escrever sobre ela. Mas escrever para quê se eu já o desejo? O problema é nós termos necessidade de reduzir sempre a compreensão das coisas a um plano linguístico. Por exemplo, muitas vezes achamos que não compreendemos uma pintura porque não somos capazes de falar sobre ela. Mas será que isso é necessário? Para se gostar de uma música há que saber explicar a música?

Nós fomos educados para reduzir a inteligibilidade do mundo a um plano racional e linguístico. E, se não o conseguirmos, já vamos pensar que nada percebemos do mundo. Mas podemos perceber. Podemos é não perceber que percebemos porque fomos formatados para não percebermos.

Nós comemos uma maçã e sentimos o seu sabor. Ou que nos mata a fome. Mas não sentimos o nosso organismo a absorver as vitaminas da maçã. Imaginemos então que o nosso corpo teria sensores que permitiam sentir internamente a absorção das vitaminas. Ok, não temos, mas poderíamos ter, fosse a nossa evolução diferente.

O que se passa com a compreensão do mundo pode ser uma coisa idêntica mas com a diferença de que podemos ter uma percepção diferente da convencional. Se eu tenho o desejo de escrever sobre esta imagem é porque já estou a entender a imagem, a sua "lógica interna", o seu sentido, a sua "narratividade". Mas, tal como acontece com as vitaminas, não consigo sentir essa compreensão, preciso do sabor da maçã. As palavras de que julgamos precisar conferem inteligibilidade à imagem do mesmo modo que o ácido ou o doce da maçã nos permitem entender a maçã como um objecto físico e real.

Compreender a arte passa também por aqui: educar certos sentidos, certas intuições que estamos longe de imaginar poder possuir.

1 comentário:

Maria...ia disse...

A arte é o elo comunicativo em si, porque dispensa a palavra. Por mais discursos que se criem em redor, tudo fica muito aquém da necessidade, do desejo que move a criação.

;)