03 junho, 2009

O PORTÃO

Cada vez me convenço mais de que o melhor governo é o que intervém menos na vida das pessoas. Como na relação entre um pai e um já filho adulto.

Quando, há anos, soube que nos EUA as pessoas tinham de vir para a rua fumar, não quis acreditar. Por duas razões. Pela própria aberração da situação e conhecer um pouco da história daquele país.
Entretanto, a medida chegou a Portugal.

Antigamente, na minha escola, havia uma sala de fumadores. Só lá estava quem queria fumar ou quem, mesmo não fumando, queria conversar e conviver com colegas fumadores que por ali estivessem. Não o meu caso, que não sou fumador.

Hoje, o que se passa? Os professores e funcionários, pessoas adultas, têm de vir para o portão da escola fumar. Uma situação degradante e humilhante para cidadãos adultos que fumam porque querem, porque gostam, porque lhes apetece e ninguém tem nada a ver com isso. Uma aberração numa sociedade livre, democrática e que se orgulha de ser liberal. Liberal? A essência do liberalismo político é a seguinte: desde que não incomodem os outros, o estado não deve meter o nariz na vida dos cidadãos.

Neste caso, temos um estado que diz: ”Não, mesmo que tenhas uma sala só para ti, mesmo que não incomodes ninguém, mesmo sendo adulto, responsável e consciente dos teus actos, não te deixamos aí fumar. Se queres fumar tens de ir para a rua, ficares ali no passeio de chapéu-de-chuva se estiver a chover ou sob um sol escaldante se estiverem 30 graus”.

Imaginemos agora o seguinte. Tal como há pessoas que, depois do jantar, se sentam no sofá a beber um uísque enquanto vêem televisão, eu decido, a partir de agora, começar a chutar uma dose de heroína e ficar ali sentado no sofá a ver a RTP África até ir para a cama.

Ora bem, por que razão o estado me proíbe de consumir heroína? Porque me permite o estado beber todas as noites uma garrafa de aguardente e não me permite injectar uma dose de heroína, se eu preferir a heroína à aguardente? Alguém me pode explicar porquê? Eu tenho todo o direito de me injectar tal como outros de se apaixonarem por uma boneca insuflável, ver os programas da Júlia Pinheiro ou votar no PS.

O mais estranho no meio de tudo isto é o modo como as pessoas se acomodam às situações. Coisas que, ouvidas pela primeira vez, achamos inacreditáveis, impossíveis, que nos deixam perplexos mas depois passam a fazer naturalmente parte das nossas rotinas diárias.

Alguém me consegue explicar o que está a acontecer?
Jornal Torrejano, 29 de maio de 2009

3 comentários:

José Borges disse...

Não será a substituição de uma moral religiosa por uma moral de Estado?

José Ricardo Costa disse...

Isso ando eu a pensar há muito tempo. E a preocupar-me também. A democracia portuguesa ainda vai ter o seu Eisenstein ou a sua Leni Riefenstahl

JR

José Borges disse...

Sim, a ideia não é minha, é provável que a tenha lido aqui.