04 junho, 2009

O GRANDE SILÊNCIO

No próximo sábado, com o Público, virá o Grande Silêncio.

Esteticamente, e falo apenas de estética, o filme é um assombro. De uma beleza de cair para o lado. Cada fotograma do filme é uma bela fotografia que vale por si mesma.

Música para os meus olhos do mesmo modo que a música de Arvo Pärt é fotografia para os meus ouvidos. Mas não foi apenas esse lado estético que me fez render ao filme. Há também um lado político muito interessante.

Nós vemos a vida dos monges naquele isolado mosteiro alpino e parece haver ali um corte com uma dimensão social da existência. Mas não há. É antes uma outra maneira de a encarar que passa também pelo modo como cada um encara a vida consigo próprio.

O silêncio, ali, não é um silêncio absoluto. Aliás, o filme está cheio de sons. O som de uma gaveta que se abre, de uma tesoura que rasga um tecido de pano, de um sino, das orações, do vento ou dos risos em momentos de brincadeira. Então, se não há silêncio, por que se chama "O Grande Silêncio"? Porque há uma absoluta surdez relativamente a tudo o que são os "nossos" ruídos.

Daí o lado ético e político. Não se vive ali em função da vaidade, da ambição, do poder, da riqueza, do medo ou do ódio. A filosofia política é uma área da filosofia que trata de questões como "Quem deve governar?", "O que é a propriedade?", "Quais os limites do poder?", "Como deve ser feita a distribuição das riquezas?". Mas, tal como o direito, a política não se pensa a si própria. Antes de todas aquelas perguntas devemos perguntar: "O que é a felicidade?", "Quais os valores mais preciosos?", " O que é o necessário e o supérfluo?".

Responder a isto implica não apenas cada indivíduo olhar para si próprio mas também para o tipo de sociedade em que vivem os que olham de uma determinada maneira para si próprios. Pode parecer estranho, mas questões como o trabalho, o dinheiro, as relações de produção, o lazer, a ecologia, o tempo, estão implícitas naquelas perguntas. É neste sentido que aquele mosteiro, enquanto microcosmos habitado por um conjunto de pessoas que vivem numa comunidade mas tendo cada uma uma função social específica, pode ajudar a compreender tudo isso.

1 comentário:

José Borges disse...

Eu tive, mais uma vez, a infelicidade de ter dado 20 euros pelo dvd, e agora o sacana sai a 1,95... Sinto-me profundamente revoltado. Vi o documentário quando estreou no cinema Nimas. Um portento!