19 junho, 2009

O EXAME DE PORTUGUÊS


Fui, hoje, fazer a vigilância do exame de Português de 9ºano. Em boa hora fui convocado para a fazer. Pude ler o exame e finalmente compreender por que razão há cada vez mais alunos a chegar ao 10ºano num estado absolutamente deplorável. Veja-se o que se pergunta num exame de Português a um aluno, depois de ter andado 9 anos na escola mais 3 de infantário.

1. Na prova, vem um texto retirado da revista Visão, dedicado a um fotógrafo ecologista. Todo o texto é o fotógrafo, o fotógrafo, o fotógrafo.

Na escola múltipla vem então a seguinte questão:

"Indica a que ou a quem se refere o pronome «o» em «nunca o abandonaram»"

Ora, a frase completa é: " Mas as imensas paisagens africanas que ficaram registadas na sua câmara, durante os passeios de balão, nunca o abandonaram". E então, no meio de quatro hipóteses, lá vem o misteriosíssimo fotógrafo. O aluno, pelos vistos, precisa de 12 anos no sistema de ensino português para poder compreender que aquele "o" subsitui o fotógrafo.

2. Ainda no texto, por baixo do título, está a seguinte frase "A suas imagens aéreas têm apenas um fim - mostrar a terra para que as pessoas a preservem"

Na escolha múltipla pede-se ao aluno para dizer se a expressão «um fim» pode ser substituída por:

a) um termo.
b) um limite.
c) uma conclusão
d)uma finalidade.
Mais uma vez, o aluno português precisa de 12 anos para perceber que "fim", neste contexto, equivale a finalidade. Não vá ele confundir o fim de uma pessoa que compra jornal para consultar as ofertas de emprego com a morte dessa pessoa...

Como não quero maçar muito com outras questões, resta-me apenas dizer que todo o grupo de escolha múltipla é marcado por esta elevação intelectual.

3. Há uma lista na qual o aluno tem que identificar 5 palavras graves. Ora, eu lembro-me perfeitamente de na 3ªclasse os meus filhos já estarem fartinhos de saber identificar palavras graves como "lápis" ou "marco". Pelos vistos, no 9ºano, não é líquido que as aprendizagens da 3ªclasse estejam consolidadas. Bem, ainda tem mais 3 anos, até ir para a universidade, para reforçar os conhecimentos nesta matéria.

4. E quem diz palavras graves, esdrúxulas ou agudas,diz a sua formação por prefixação e sufixação. Como se estivesse na 3ªclasse pede-se ao aluno para distinguir a formação das palavras "desfazer", "calmamente" e "avermelhar".

5. Pede-se ainda ao aluno para dizer, na frase "Aqueles são os fotógrafos______________ o presidente ofereceu um prémio de cidadania", com qual dos seguintes elementos deve preencher o espaço em branco:
que, de que, a quem, cujo, em que, onde.

E o mesmo na seguinte: "Este é o lugar do nosso país___________conheço melhor".

E outras do género.
Depois, pedem-me, no 10ºano, para lhes ensinar Locke, Rawls, Kant, Stuart Mill, Bentham, o problema da liberdade e do determinismo.

3 comentários:

Alice N. disse...

Tem toda a razão. Esta prova era vergonhosamente acessível (ainda mais que as dos anos anteriores). Como se não bastasse, o exame tinha uma questão bastante ambígua (a n.º 8, sobre o texto B). Por estar mal formulada, permitia perspectivas de análise completamente diferentes (os critérios de correcção confirmam-no). Não tenho nada contra o facto de se analisar um texto sob perspectivas diferentes; pelo contrário, procuro estimular a pluralidade interpretativa junto dos meus alunos, sempre que os textos o permitem. Aprendi, no entanto, que, independentemente do seu grau de dificuldade, uma pergunta deve ser sempre claramente formulada; que dificultar uma pergunta recorrendo a uma linguagem "nebulosa" é sinal de incapacidade linguística. Estarei desactualizada? Como é, pois, possível um exame conter uma pergunta cuja resposta possa variar em função da interpretação que o aluno faz dessa questão? Não me parece normal.

Quanto ao resto das perguntas, nem vale a pena falar. O seu post é suficientemente elucidativo. Enfim, com o facilitismo que está instalado, mais valia acabarem com os exames ou darem-lhe outro nome. Só tenho pena dos alunos aplicados, que se esforçaram por aprofundar os seus conhecimentos e muito trabalharam para estarem à altura do "desafio". Era suposto ser um desafio, não é verdade? Os verdadeiros estudantes (e não "escolantes") mereciam mais respeito (e o trabalho dos professores também, já agora), mas, infelizmente, hoje, a escola pública não existe para quem queira e goste de trabalhar. Merci, MLR.

jl disse...

É claro que pensando nos incautos ou "distraídos", para que o sistema pudesse apresentar resultados, o professor podia dar uma ajudinha e dizer a resposta correcta, não?

Valha-nos a Sra da Agrela!

addiragram disse...

Sem comentários! E onde se poderá avaliar o Ministério da Educação? As eleições vem aí, a única hipótese que nos resta.