19 junho, 2009

O ENGENHEIRO QUE CONFUNDIU O PORTUGUÊS COM UM CHAPÉU


A entrevista do engenheiro à SIC, na qual surgiu travestido de coelhinho da Páscoa, fez-me lembrar um dos capítulos de “O homem que confundiu a mulher com o chapéu” de Oliver Sacks, onde fala de doentes que acompanhou ao longo de muitos anos, com doenças raras do sistema nervoso que alteram a nossa percepção do mundo, dando assim origem a reacções insólitas e bizarras.

Conta ele que, um dia, ao entrar na enfermaria dos afásicos (doença que impede a compreensão das palavra que se ouvem.), foi dar com eles a rir às gargalhadas enquanto viam, na televisão, um político a discursar. Porquê? Porque não entendendo as palavras, o afásico fica muito mais sensível ao modo como as palavras são ditas, por exemplo, a sua entoação. É por isso que se torna difícil mentir a um afásico. Enquanto uma pessoa normal pode ser facilmente enganada por um discurso bonito e aliciante, mas cheio de falsidade, o afásico é muito mais sensível à falsidade ou malícia de quem fala.

Os afásicos são como os cães. Se dissermos a um cão, com voz meiga “Anda cá, Lassie, sua cadela dum corno ou levas um pontapé no focinho” o pobre animal deita a língua de fora e levanta as patas, à espera de umas festas. Mas se dissermos, ralhando e aos gritos, “Anda cá, Bobby, para eu te fazer umas festinhas” o mais certo é vê-lo a arreganhar os dentes e a rosnar. Porque o cão, não entendendo o que se diz, é sensível ao que mostra sentir aquele que diz.

Sou levado a crer que, perante certos políticos, como é o caso do engenheiro na sua nova pele de bonzinho e humilde, os níveis de lucidez e perspicácia de um afásico serão bem mais elevados do que os de uma pessoa normal.
E seria bom que os políticos, de uma vez por todas, deixassem de ver os eleitores como cãezinhos que salivam, deitam a língua fora, e levantam as patinhas, enganados pelo discurso do dono que, apesar de soar muito bem ao ouvido, não deixa de ser insultuoso para a sua inteligência.

2 comentários:

jl disse...

Somos lá agora uma coisa dessas tão feia, JR!
Permita-me a brincadeira: somos mas é trifásicos: espertos e descontentes mas esquecidos!
Ah, lá isso talvez!

addiragram disse...

Uma esplêndida comparação! Eu devo ter qualquer coisa de afásica porque sempre gostei de "ler" a linguagem não-verbal daqueles que comigo comunicam. Às vezes faço aquela brincadeira de desligar o som e ficar a olhar-lhes as expressões...Quantos lobos que por aí andam...Torna-se logo evidente a natureza da sua autenticidade.
Relativamente à personagem em questão ressalta, desde sempre, a rigidez facial,o discurso mecanizado e quase robótico,um olhar, ora inexpressivo ora cheio de raiva.
Somos, de facto, muito facilmente seduzidos pelos efeitos encantatórios da palavra, e nessa matéria os políticos são exímios.
As personalidades com núcleos manipuladores apresentam, quase sempre, nas provas de nível intelectual, valores elevados no pensamento verbal. O pior é o resto...Há que conferir sempre com o estudo da personalidade.