02 junho, 2009

MORTE INVISÍVEL

Eu não consigo entender por que razão se dá tanta importância a um acidente aéreo. Ok, morrerem duzentas e tal pessoas. Certo. Mas todas os dias morrem pessoas no mundo inteiro. Há sempre pessoas a morrer. Dirão que foi um acidente. E daí? Neste momento estão a morrer, de acidente, pessoas em Portugal, Espanha, Alemanha, Suécia, Brasil, China ou Índia. Havia crianças? Havia. E quantas crianças estão neste momento a morrer de fome, abandonadas, atropeladas, com a lixívia da cozinha, nas escadas, em varandas, afogadas em piscinas ou tanques?
Ficamos chocados com a morte daquelas pessoas como se neste momento não estivessem a morrer pessoas. Ali morreram duzentas e tal. No mundo, todos os dias, morrem milhares e milhares, crianças, jovens, adultos, velhos, homens, mulheres, de todas as nacionalidades.
De facto, a morte deixou há muito de fazer parte da vida. A vida é que não deixou de fazer parte da morte.

5 comentários:

Anónimo disse...

Poderá ser porque a aviação é um símbolo há muitos anos da sagrada "tecnologia"?

No acidente não morreram "apenas" 200 pessoas. Morreu uma ideia de segurança baseada na tecnologia. De tempos a tempos algo assim acontece e obriga a repensar essa "crença".

Depois a vida resume o seu curso normal, ie, a "fé" aumenta de novo. Os duzentos mortos no acidente aéreo serão apenas mais um dado estatístico na história da aviação.

Agora pergunto-me, serão apenas os jornalistas que se interessam pelo acontecimento, enquanto pura notícia de um acidente aéreo, ou o comum cidadão terá um verdadeiro interesse? - E que "verdadeiro" será esse interesse? Será o lado "Voyeur" de cada um? Do típico português que abranda para ver o acidente na beira da estrada?

Acho que apresentei mais questões do que "opinei" sobre o assunto. Mas como o JR melhor saberá do que eu, a opinião é sempre oposta à verdade.

"A doxa é aquilo que se opõe à verdade". S. Tomás de Aquino





Luis

Dioniso disse...

Não é a morte que interessa, mas a facilidade em mediatizá-la. Por outro lado, houve um certo suspense neste acidente (termo filosófico com uma bela história, bem ao lado do sentido comum de hoje), óptimo combustível mediático.

José Ricardo Costa disse...

Eu não acho que a aviação seja um símbolo da "sagrada tecnologia". Será mais, por exemplo, o computador e a televisão. A chave pode estar no facto de o acidente ser uma fractura na estrutura da normalidade. Todos os dias morrem pessoas em automóveis mas estão distribuídas pelo mundo, fazendo parte da normalidade desse mundo. No avião, estão todas juntas. Tal como no autocarro de Entre-os-Rios ou no comboio de Alcafache. A morte de 1+1+1+1+1+1+1+1+1+1, aqui, ali e acolá, não é uma tragédia. Faz parte da vida. A morte de 10 pessoas no mesmo sítio já o será.

JR

estela disse...

o ponto mais interessante é o "todos os dias".

e o quanto é insuportável trazer consigo as mil tragédias diárias do mundo. mais de mil.

suponho que a selecção daquilo que aguentamos tende a sublinhar o que não é diário, porque nos salva e livra de sofrer sem fim.

não que esteja certo esquecer a morte diária a troco da morte especial de corrida no pássaro de ferro. mas que seria de nós confrontados com o mundo todo a todo o momento?

tudo isto ainda independentemente do facto de os serviços informativos já serem eles também selectivos e teimosos, à procura do que dá mais tinta...

do mesmo modo, notamos nestes momentos de azares especiais e oficialmente dignos de notícia que ninguém fala dos outros azares diários.

darwin para optimistas.

addiragram disse...

O problema não é a notícia do acidente aéreo, o problema são todas as não-notícias que se apagam por não existirem como notícias.
A narratividade tem também a função de procurar uma compreensão e um tentativa de controle da angústia que um acidente desta natureza provoca. Todos sabemos que podíamos ter viajado naquele avião e, nessa altura, nada haveria mesmo para contar...