25 junho, 2009

LUIS BUÑUEL - VIRIDIANA (1961)

Eu começo a ver o filme e à medida que vai aumentando a sua tensão erótica, temo o pior. Não porque o erotismo me aflija mas porque se trata de um erotismo datado se visto a partir da actualidade. Pensei que iria perder o meu tempo. De facto, ver uma jovem e bela freira ser desejada sexualmente por um lúbrico tio, poderia ser profundamente subversivo em 1961. Não em 2009. Ou um plano em que se vê a sua perna, apesar de muitos anos depois Rohmer criar ainda essa tensão com o joelho de Claire. Mas são lógicas cinematográficas completamente distintas.

Felizmente, estava enganado. A parte política do filme estava para vir e essa, sim, fabulosa. O que eu vou dizer não é bonito para alguém de esquerda, seja da esquerda champagne, da esquerda clássica ou da esquerda que não é esquerda. A imagem que Buñuel nos dá do povo é muito parecida com a que nos dá o Goya da série negra. O povo, neste filme, não é coisa bonita de se ver. Para além do seu aspecto fisicamente repugnante, é uma classe de gente má, perversa e indolente.

O excerto que eu seleccionei e que pode ser vista em cima é bastante revelador. Trata-se de um momento em que um conjunto de mendigos apoiados socialmente pela jovem freira, aproveitando a ausência daquela da casa burguesa pertencente ao tio que, entretanto, morrera, a ocupam, levando às cenas eloquentes que se podem ver.

Claro que o retrato é manifestamente errado e não apenas exagerado. De qualquer modo pode ajudar-nos a pensar nas consequências resultantes de uma sociedade sem elites intelectuais e culturais, sem referências morais. Uma sociedade em que o povo puro e duro, o povo tal como ele é, o povo "bom selvagem", fica entregue a si próprio.

Não posso deixar de referir um momento fortíssimo do filme: uma versão cinematográfica da Ùltima Ceia.O filme, claro, foi proibido em Espanha e considerado indigno pelo Vaticano por desprezar não só o catolicismo mas o próprio cristianismo.

3 comentários:

José Trincão Marques disse...

Os teus últimos posts abordam o tema da natureza humana (que no caso de Hitler e neste caso do povo «puro e duro», como lhe chamas, resvalaria para a desumanidade).
Penso que só o podes fazer por provocação.
A natureza humana é ambivalente e contraditória. Tem facetas e expressões de amor e ódio, de solidariedade e egoísmo, de paz e violência, de inteligência e irracionalidade. Todos os dias vemos exemplos disto na rua, na tv, na escola, nos tribunais, nos hospitais...
Estas manifestações da natureza humana estão latentes em todas as sociedades, em todas as classes sociais e em todas as épocas. Podemos comprovar este facto até na história da literatura, onde os comportamentos e os sentimentos dos homens são basicamente sempre os mesmos desde Homero. Capazes do melhor e do pior. William Golding, em «O Deus das Moscas» retrata este assunto de uma forma original e exemplar. Não existem bons selvagens, nem maus selvagens. O mundo está cheio de pequenos Hitlers e Pol Pots, de Madres Teresas de Calcutá e de Gandhis. Isto é a Humanidade.
Viridiana fez-me lembrar o filme «Torre Bela», realizado no PREC em Portugal por Thomas Harlan (numa perspectiva esquerdista, mas com aspectos comuns interessantes).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_Bela_(filme)

José Ricardo Costa disse...

Vamos lá ver o seguinte. Uma coisa é o mal, outra, a monstruosidade. Uma pessoa fazer-se amiga de outra por interesse financeiro, é normal. Fazer um desfalque na empresa para poder comprar um carro de luxo, é normal. Faz parte do tal lenho retorcido, a humanidade, de que fala Kant.

Mas nem tudo o que é humano é normal. Neste caso, passamos a ter uma visão médica e não moral da humanidade. Para um médico as doenças são normais. Existem, estão aí, estudam-se, curam-se. Um vírus é tão normal como um ciclone ou um terramoto. Mas, saíndo do laboratório, saídos dos compêndios, dos microscópios, sabemos que as doenças não são normais. Existem mas não são a normalidade. São estados de excepção, são desvios face à normalidade. E o que é a normalidade? Pode ser triste para um filósofo mas trata-se de uma questão estatística: quantos monstros como Hitler conheces em TN? E em Santarém? Quantos há por aí? A normalidade não é os pais violarem as filhas apesar de haver pais que violam as filhas. Tu dizes que é normal porque se faz. Eu digo que não é normal apesar de se fazer.

JR

José Trincão Marques disse...

Em todo o meu comentário nunca utilizei a palava «normal». Até porque a palavra normal tem vários significados: conforme a norma, ou a regra; e comum ou usual.
Não considero que as monstruosidades que referiste sejam normais em nenhum destes sentidos. São anormais.
O meu ponto é outro. A natureza humana transporta consigo as sementes da civilização e da barbárie, da bondade e da maldade, se quiseres. Depois há sempre alguns poucos anormais que exageram, para o bem e para o mal. Aliás, se não existisse o mal, não existiria o bem (ou estarei errado?).