28 junho, 2009

LIXO EDITORIAL




Hoje, quando entramos numa livraria, vamos dar com quilos e quilos de lixo editorial. Os nostálgicos de um passado mítico aproveitam logo para falar na degradação e crise do nosso tempo. Para curar este pessimismo nada melhor do que passear pela história. Em Torres Novas realiza-se, mensalmente, uma feira de velharias. E hoje por lá andei a ver livros antigos. Ora, o lixo editorial que existe hoje é uma brincadeira se comparado com o lixo editorial de outrora.

Há, no entanto, duas diferenças. As filhas das meninas e senhoras que tinham a 4ªclasse e sabiam, portanto, ler, e liam aqueles livros, fizeram o 9ºano, o 12ºano, tendo muitas delas tirado cursos superiores, sendo hoje jovens licenciadas. Tal como as suas mães, continuam a preferir lixo literário só que mais polido. Os romances de amor de outros tempos deram, entretanto, lugar a romances de amor mais urbanos e cosmopolitas, apimentados com alguma espiritualidade e misticismo, se bem que tão maus como os seus antecessores. Os próprios livros de auto-ajuda, seja física, seja espiritual, seja até mesmo religiosa, não são uma criação actual. Ainda hoje vi uma série deles, alguns dos quais tratavam o leitor como se de um indigente se tratasse.

Há ainda outra diferença. Antigamente, o lixo editorial era vendido sobretudo em quiosques e tabacarias. Os seus herdeiros modernos, no entanto, conseguiram penetrar nas livrarias que, de certo modo, estavam protegidas por um cânone cultural e institucional que seleccionava o que teria ou não dignidade para lá entrar. As livrarias, neste sentido, literariamente falando, são os quisques modernos para jovens licenciadas ou com o 12ºano que gostam de ler e de se sentirem cultas.

Mas, mutatis mutandis, continua-se a ler hoje o que já se lia há 30 e 40 anos. Com uma nova cosmética, claro, de acordo com critérios estéticos, sociais e temáticos do novo mundo. Em suma, Portugal não evolui nem regrediu. Continua igual a si próprio.

2 comentários:

addiragram disse...

O Problema é que se publica muitíssimo mais e, portanto, as livrarias ficam muito mais ocupadas por essa lixeira, retirando o lugar aos Livros.Actualmente, se decidir publicar um livro,ele terá um tempo de exposição na livraria, na melhor das hipóteses, de 15 dias a um mês, para ser, de imediato, soterrado pela nova enxurrada. E o lixo editorial fica sempre nos lugares mais visíveis da livraria, de preferência junto à caixa.
O difícil é um livro de qualidade conseguir ali sobreviver...

Anónimo disse...

Certeiras observações as suas. Só julgo que não é uma caracterítica restrita a Portugal. Já agora, e se tal me permite, gostaria de lhe referir, como lembrança para leitura, o capítulo V das Viagens na minha terra, e a garrettiana receita para fazer literatura original sem muito trabalho. Tremendamente actual e nem sequer é receita original do autor, já velha era antes de no-la dar.
JB Lemos