16 junho, 2009

JÉSSICA E MARIANA

Jeff Koons em Versalhes

Há tempos, num parque, encontrava-se uma mulher jovem com duas filhas. Chamavam-se Jéssica e Mariana. Foi, para mim, uma verdadeira revelação sociológica.

O nome de uma pessoa tem uma importância quase medieval. Não é só um nome mas uma marca social que se cola à sua pele. Salvador ou Bruno Vanderlei não são apenas nomes diferentes, como por exemplo, João, Pedro, Jorge ou Carlos. São sinais de mundos diferentes.

Quando nos anos 70 e 80, nomes modernos como Carla, Andreia, Patrícia, Ana Sofia, Ana Filipa, Sílvia, Mónica, Joana, Tânia, Vânia, Daniela ou Telma, vieram substituir a Maria Fernanda, a Helena, a Rosa Maria, a Lídia, a Graça, a Isabel, a Gabriela, a Paula, a Teresa, a Manuela, a Edite, a Alda, a Irene, a Lina, a Fátima, a Dora, que por sua vez já tinham substituído a Maria do Céu, a Custódia, a Cremilde, a Natalina, a Guilhermina, a Deolinda, a Maria de Jesus, a Otília, a Maria do Rosário, a Emília, a Maria das Dores, a Hortênsia, a Judite, a Hermínia ou a Conceição, Portugal já não era o mesmo país. Era já um país terciarizado em que a casa da aldeia foi sendo substituída pelo apartamento na cidade.

Ora, isso foi uma ameaça para todos aqueles que já viviam na cidade e usufruíam desse estatuto através de uma imagem social mais polida. Há 50 anos, “ser de Lisboa” era um cartão de visita dourado.

Os nomes dos puros urbanos, vendo-se ameaçados pelos novos urbanos, teriam pois que ser refeitos. Como? Indo buscar nomes afastados dos modernos, as tais Carlas, Patrícias e Susanas, hiperbolizados através da Cátia Vanessa, da Soraia Filipa, da Priscila, da Carina, do Fábio, do Roberto Carlos e do nosso Bruno Vanderlei.
Foi assim que surgiram a Beatriz, a Leonor, a Inês, a Carolina, a Maria, a Madalena, a Carmo, a Matilde, a Maria Ana, a Mariana, a Marta, a Carlota, a Francisca, a Margarida e a Rita. O Martim, o Bernardo, o Manel, o Vasco, o Francisco, o Salvador, o António, o José Maria, o Gustavo, o Diogo, o Lourenço, que vieram substituir o Marco, o Cláudio, o Ricardo, o André, o Bruno Filipe e o Paulo Alexandre, que por sua vez vieram substituir o João, o Pedro, o Jorge e o Carlos que por sua vez já tinham vindo substituir o Norberto, o Olímpio, o Mário, o Germano, o Arnaldo, o Justino, o Cândido, o Aníbal ou o Hilário.

A crise do apelido, bastante sentida pelo fim do Antigo Regime, e da decadência das velhas famílias, foi assim substituída pelo apogeu do nome próprio. Já não é preciso chamar-se Vasconcelos, Athaíde, Albuquerque ou Mendonça e morar numa quinta ou num palacete. Basta ser Madalena ou Salvador, ainda que num apartamento.

Graças a esta moderna diferenciação onomástica, a demarcação social tem sido feita com alguma objectividade. Até ao dia em que estive naquele parque, tinha a sensação de que a questão dos nomes estaria por ora resolvida: uma Jéssica era uma Jéssica, uma Mariana era uma Mariana.

Ora, surgir lado a lado, sangue do mesmo sangue, uma Mariana e uma Jéssica, revelou-me uma mudança sociológica. De um plano moderno para outro pós-moderno. Jéssica e Mariana, são uma espécie de crioulo sociológico construído a partir de uma confusa mistura entre elementos de línguas diferentes.
E é cada vez mais assim o mundo em que vivemos.

7 comentários:

addiragram disse...

E qual será a influência de cada um dos nomes no "destino" de cada uma?

José Ricardo Costa disse...

Os nomes, propriamente ditos, não devem influenciar grande coisa. O que já pode influenciar é o modo como nos relacionamos com os nossos nomes. Eu já tive uma aluna que não conseguira superar o trauma de ser Cátia Vanessa. Quando falava comigo sobre isso (eu dava-lhe apoio psicológico)era como se fosse uma espécie de tuberculose psicossocial).
JR

addiragram disse...

Isso, e as atribuições que os outros nos fazem por via dos nossos nomes.Afinal isto tudo é um "Campo"de influências múltiplas e recíprocas. Se eu me tivesse chamado Gabriela, como chegou a ser um dos projectos dos meus pais,não acredito que fosse, exactamente, a mesma pessoa.

Alice N. disse...

"Os nomes, propriamente ditos, não devem influenciar grande coisa."

Os nomes, não sei; já os sobrenomes... Esses fazem, com certeza, toda a diferença - infelizmente.

José Borges disse...

Concordo com a Alice. É interessante verificar, por exemplo, que no Brasil, é legalmente possível nomear um filho com o nome que bem se entender. Isto significa, por exemplo, que numa favela, somos capazes de encontrar um miúdo chamado Napoleão de Mendelsohn-Bartholdy ou, se tiver sorte, Um Dois Três de Oliveira Quatro, o que parece ser um facto. Pode parecer estranho mas não deixa de ter consequência muito práticas e interessantes na hora de alguém regozijar-se do nome que tem. Isto é o oposto do que acontece em o 'Admirável mundo novo' do Aldous Huxley, mas as consequências são as mesmas...

Cristina disse...

Que dizer do ecuménico crioulo de uma Jéssica da Conceição que eu conheço? É que a Jéssica nasceu a 8 de Dezembro.

José Ricardo Costa disse...

Jéssica da Conceição? Deus do céu, isto já não é pós-modernismo. É um verdadeiro apocalipse
civilizacional!

JR