14 junho, 2009

A INFLUÊNCIA DOS RAIOS UV NO DESTINO DA MINHA ALMA

Ontem, fui, sem tempo para delongas, a uma superfície comercial. Precisava de um lápis para os olhos, coisa importante na vida de uma mulher, tinha de regressar a umas citações de Derrida que me andam a moer a paciência e queria deitar mãos e tempero ao jantar do Zé Ricardo, que alimentar bem um homem deve ser um projecto de vida.

Ora ia eu nesta azáfama, quando fui travada por uma senhora que pretendia mostrar-me as vantagens de um cartão bancário: "Pode dar-me um pouco da sua atenção?". Educadamente, juro que muito educadamente, respondi-lhe que estava com pressa.

"Não tem 5 minutos???". Isto foi dito num tom tão insolente, tão arrogante, tão digno de um par de bofetadas que eu resolvi ter tempo. Abri o saco, tirei a agenda e folheei, folheei, folheei até me cansar. Depois, com um ar de aristocrata russa exilada em Torres Novas, disse-lhe: " Bem ... se faz assim tanta questão, penso que nos finais de Abril de 2014 poderei recebê-la. Convém-lhe?"

Esperei uma resposta que não chegou. Abria e fechava a boca, sem articular som algum, como um aventureiro de meia-tigela a quem tivessem tirado a bússola e o GPS. Eu sorri e afastei-me.

Eu sou má. Sou muito mazinha. Vou reabastecer-me de protector solar porque, ao que consta, a temperatura do Inferno está cada vez pior e, no dia dia Juízo Final, quero estar com uma cútis irrepreensível.

5 comentários:

Alice N. disse...

:))
O seu sentido de humor e ironia são do melhor! Há muito que não ria assim.

Woman Once a Bird disse...

Deliciosa! :)

António Ventura disse...

Boa, boa!

addiragram disse...

Na "mouche"! Vou guardá-la para usar na próxima abordagem de que for vítima! :))
A única desculpa nos tempos actuais é a de que essas funcionárias eventuais são pressionadas até à medula para "cumprir objectivos",i.e, vender cartões a qualquer custo e a técnica em que as "formam" consiste na utilização desse abalroar agressivo. Quem assim não fizer, vai de patins...........E, os nossos infelizes licenciados desempregados andam por aí a tentar sobreviver.
Essa é a razão porque quando, à hora de jantar, sou bombardeada com a praga dos telefonemas para vender o que quer que seja, me passei a controlar um pouco.

José Borges disse...

Eu já trabalhei num call center... Aquilo brutaliza um sujeito! Não consegui estar lá mais de mês e meio (de qualquer das maneiras o objectivo era ter dinheiro para a feira do livro, portanto foi mais que suficiente). E digo isto porque nunca na minha vida fui tão achincalhado, mas digo-lhe Ivone, que ter-me-ia dado um enorme prazer levar um bailinho assim! Muito à frente!