13 junho, 2009

HEIDEGGER E A TÉCNICA


Entrevista concedida por Martin Heidegger ao Der Spiegel em 23 de Setembro de 1966 (excerto).

"Der Spiegel: Poderia replicar-se-lhe, com toda a ingenuidade: o que é que há aqui que precise de ser dominado? A verdade é que tudo funciona. Cada vez se constroem mais centrais eléctricas. Produz-se de forma competente. os homens estão bem acomodados nesta zona altamente tecnificada da Terra. Vivemos com bem-estar. Falta-nos, porventura, alguma coisa?

M. Heidegger: Tudo funciona. É precisamente isso que é inquietante: tudo funciona, e o funcionar arrasta sempre consigo o continuar a funcionar, e a técnica arranca o homem da terra e desenraíza-o cada vez mais. Eu não sei se não os assusta –seja como for, a mim assusta-me – ver agora as fotografias da terra feitas da Lua. Não é preciso nenhuma bomba atómica: o desenraizamento do homem já está aí. Nós já só temos relações puramente técnicas. Já não é na Terra que o homem hoje vive. Há pouco tempo, na Provença, tive uma longa conversa com o poeta e combatente René Char. Estão a construir bases para mísseis na Provença e a região desertiza-se de uma maneira inimaginável. O poeta - que, com certeza, não é suspeito de sentimentalismo, nem de uma adoração tola do idílio - dizia-me que se o pensar e o poetar não conseguem alcançar o poder da não-violência, o desenraízamento que se está a dar do homem será o fim."

É muito interessante entender a diferença entre o modo como Heidegger olha para a técnica em O Ser e o Tempo e nos textos mais ensaísticos como A Questão da Técnica, A Superação da Metafísica, Para quê os Poetas?, o Tempo da Imagem no Mundo ou Serenidade.

Em O Ser e o Tempo, Heidegger fala da manualidade (poiésis em Aristóteles) como evasão da angústia. O mundo da produção é uma forma de o homem combater o nada, o vazio, a sua posição enquanto projecto atirado para o mundo.

Mais tarde, porém, a sua perspectiva da técnica passa a ser outra, bem mais pessimista. Já não se trata de uma fuga perante a angústia, através do mundano território da manualidade. Trata-se, antes, de passar a fazer parte de um mundo do qual perde o controlo embora mantendo a ilusão de “que a técnica é algo que o homem tem na mão". Já não se trata de uma inautenticidade enquanto recusa existencial da angústia. Trata-se de uma inautenticidade enquanto rejeição de si próprio e da sua natural relação com a Terra.

Se Heidegger tinha ou não razão no que dizia em 1966, ainda é cedo para saber. Mas há, no nosso mundo, sinais que pelo menos nos devem obrigar a pensar.

2 comentários:

estela disse...

é como deixar de passar os invernos a fazer tricot, encher a família de xailes, cachecois e camisolas
para comprar uma máquina de tricotar que faça tudo sozinha a partir de desenhos que copiamos das revistas especializadas. a família passa a ter prendas aparentemente perfeitas no natal, mas perdem a graça toda e deixam de ser especiais...
heidegger é para mim o parente ideal para os cachecois ;)

José Ricardo Costa disse...

Mas que deliciosa observação!
;-)
JR