28 junho, 2009

GUERRA E PAZ - XXXVIII

Ivan o Terrível

"A bondosa condessa zangava-se como Sónia sobretudo porque a pobre sobrinha de olhos negros era tão meiga, tão bondosa, tão grata e dedicada aos seus benfeitores, e apaixonada por Nikolai com tanta fidelidade, constância e abnegação que era impossível censurá-la fosse pelo que fosse". livro II, quarta Parte, cap. 8

Pode uma pessoa bondosa zangar-se com uma rapariga por ser bondosa, grata, dedicada aos benfeitores (a bondosa condessa) e estar apaixonada com tanta fidelidade, constância e abnegação pelo filho da bondosa condessa?

Pode. Pode, se essa pessoa bondosa não quiser a bondosa rapariga para noiva do filho. A pessoa bondosa deixa de gostar da bondade da pessoa bondosa se tal bondade impedir qualquer censura a esta última só porque contraria os nossos desejos. É por coisas destas que Maquiavel será um destacado membro no dream team de Isaiah Berlin. Maquiavel arrasou a ideia de uma natureza humana perfeita e de um sistema moral imaculado independentemente das circunstâncias.

Por outro lado, os valores são incompatíveis: o que seria de Roma com os valores cristãos? E o que seria o cristianismo com os valores romanos? A humildade e a amor têm valor? Têm, mas não se constrói um império com eles. A força e a ambição têm valor? Mas o cristianismo já não o seria se os tomasse como base.

Tolstoi, nesta passagem, mostra-nos uma coisa muito simples: ninguém é absoluta e incondicionalmente bondoso. Se alguém o fosse, deixaria de ser o centro do seu universo. E se o centro do seu próprio universo é coisa que nem uma pessoa bondosa deixará alguma vez de ser. A bondade serve e funciona quando o poder não está em causa. A partir do momento em que é o poder que está em jogo, a bondade é facilmente trocada pela perfídia.

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