22 junho, 2009

GUERRA E PAZ - XXXVII


"As preceptoras discutiam se a vida seria mais cara em Moscovo ou em Odessa. Natacha sentou-se, ouviu durante um bocado a conversa delas, com uma cara séria e pensativa, e levantou-se:
-A ilha de Madagáscar - pronunciou ela. - Ma-da-gás-car - silabou com nitidez e, sem responder, a Madame Schoss, que lhe perguntou o que queria ela dizer com aquilo, saiu." Livro II, Parte 4, cap. 9

É estranho, muito estranho, "ouvir" uma jovem russa do século XIX dizer: "Ma-da-gás-car".

Para um europeu de 2009 é impossível ouvir ou ler a palavra "Madagáscar" sem a associar ao filme com o mesmo nome. É incontornável. Porquê? Porque se trata de uma ilha sobre a qual pouco se sabia e da qual pouco se falava, situação que passou a ser completamente diferente a partir do filme. Daí o nome ficar inexorovalmente ligado ao filme. O filme transformou a ilha num filme.

Mas no que pensa a jovem Natacha quando, no século XIX, diz "Ma-da-gás-car"? Não podemos saber. Não podemos saber o que se passa na cabeça de uma jovem do século XIX ao dizer a mesma palavra que nós dizemos. Não só porque não poderia pensar no filme mas porque nem sequer havia televisão, cinema, desenhos animados. Mais: mesmo sabendo que Madagáscar é uma ilha africana, o modo como na sua cabeça a ilha é pensada, não pode ser igual ao nosso. Estamos no princípio do século XIX e nem sequer há fotografias de África.

E na Filosofia? Quando Platão fala no amor ou Aristóteles na amizade, nós julgamos compreender o que dizem. Mas será assim? Será que um grego de há 24oo anos poderá pensar no que nós pensamos perante a mesma palavra, ainda que a estrutura racional do discurso seja idêntica à nossa?

Até que ponto não haverá aqui uma certa incomunicabilidade, embora disfarçada pela existência de um código comum? Não serão as almas de Platão e de Aristóteles tão inacessíveis como a de Natacha?

4 comentários:

Kamaroonis disse...

Ah! E eu que pensava que Natacha terá falado em Madagáscar como que a dizer "Essa vossa conversa é como a ilha de Madagáscar para mim! Não vos percebo!", ou bem assim algo como, "Isso para mim é chinês!"
Afinal o que ela não percebia mesmo eram os conceitos de quem, precisamente, estava ali acessível no espaço e no tempo e, para mais, com o encargo de a ensinar... É isto por vezes que eu "sinto"... "Percebo" melhor o que escreveu Platão do que o que dizem (escrevem e fazem) certas e determinadas pessoas deste nosso tempo...
Obrigado pelo seu blog! Lúcido, pertinente e, mais que tudo isso, verdadeiramente interessante.

José Ricardo Costa disse...

Sim, claro, nós percebemos o que Natacha quer dizer quando diz a palavra. Mas eu não me refiro à sua reacção. Refiro-me, sim, ao conceito de Madagáscar. Ao que se passará dentro da cabeça dela quando pensa em Madagáscar.

Mudando de assunto. Nós percebemos Platão, claro. Eu li o Górgias várias vezes e conheço o texto de cor e salteado. Mas não é isso. Penso sim, no que se passa na cabeça de um filósofo chamado Platão ao pensar, por exemplo, em justiça, antes do cristianismo, antes da idade Média, antes da Revolução Francesa, antes do liberalismo, antes do estado social, antes de...

Duvido que possa pensar no que nós estamos a pensar.

Muito obrigado pelo comentário e pelas simpáticas palavras.

JR

Kamaroonis disse...

Sim, compreendi e concordo com a ideia expressa, apenas estava a tentar dizer que esta "incomunicabilidade de almas" é, no meu entendimento, inerente à condição humana; tanto pode ser originada por uma separação de momentos históricos, como pela simples separação de contextos culturais ou pela ignorância, preconceitos ou simples enfado (de algum) dos participantes na interacção. A própria ambiguidade da linguagem quando tudo o resto está em sintonia não ajuda nada. :)

Apenas através tratados de Lógica, em que o próprio processo mental para demonstrar o conceito é descrito sem ambiguidades, poderemos nós esperar saber "exactamente" no que estava o autor a pensar, mas tal claramente não deve ser o caso com conceitos como "amor" e "justiça".

Considero a ideia expressa no seu post absolutamente correcta e pertinente, acabei por escrevinhar algo meio jocoso e se calhar menos apropriado.

Peço desculpa, este comentário excedeu o tamanho razoável. :)

Infelizmente a minha formação em Filosofia é pobre e não o conseguirei acompanhar muito longe, mas irei tentar! :)

José Ricardo Costa disse...

Sim, é inerente à condição humana. Se eu disser que me sinto feliz enquanto oiço uma Recarcada de Diego Ortiz quem pode saber o que estou a sentir ainda que toda a gente diga igualmente "estou feliz". O seu diagnóstico é correcto.

Não me consegue acompanhar muito longe? Mas para onde pensa que vou? Eu vou só ali e já venho.

P.S. Jocosidade? O mundo precisa dela como de pão para a boca.

JR