09 junho, 2009

GUERRA E PAZ - XXXII


E eu dei um tiro ao Dólokhov porque me considerei insultado. E Luís XIV foi executado porque o consideravam criminoso, mas um ano depois mataram aqueles que o executaram, também por um qualquer motivo. O que é mau? O que é bom? O que é preciso amar? O que é preciso odiar? Para que temos de viver, o que sou eu? O que é a vida, o que é a morte? Que força governa tudo», perguntava a si mesmo. E não tinha resposta para nenhuma destas perguntas, exceptuando uma ilógica, que, na verdade, não respondia a estas questões. A resposta era: « Morremos e acaba tudo. Morremos e ficamos a saber tudo, ou deixamos de perguntar
(...)
Apenas podemos saber que nada sabemos. É o grau superior da sabedoria humana". Livro 2, 2ª parte, cap 1
Esta introspecção de Pierre Bezukhov, depois de uma fractura existencial, leva-o até à maçonaria, graças à enorme coincidência de, logo depois, numa estação de comboios, conhecer uma pessoa importante ligada àquela. Durante o diálogo entre Pierre e o maçon, este diz:
"A sabedoria superior não se baseia apenas na razão nem nessas ciências laicas como a física, a química, a história, etc., em que se fragmenta o conhecimento intelectual. A sabedoria superior é única. A sabedoria superior tem só uma ciência, a ciência que abarca tudo, a ciência que explica todo o universo e o lugar que o homem ocupa nele. Para aprendermos esta ciência precisamos de purificar e renovar o nosso ser interior, por isso, para ficarmos a conhecer devemos partir da fé e devemos aperfeiçoar-nos. Foi para conseguirmos estes objectivos que nos foi posta na alma a luz divina chamada consciência" (cap seguinte)
Estas passagens são muito interessantes, parecendo haver nelas uma sequência lógica que pode ser enunciada do seguinte modo:
Existem perguntas radicais para as quais só existem respostas radicais.
Ciências laicas como a física, a química, a história, não são radicais.
Só renovando e purificando o nosso ser interior através da fé podemos encontrar a sabedoria superior que nos dá as respostas.
Mas vai para aqui uma enorme confusão e não penso apenas no facto de este raciocínio não ter qualquer sustentabilidade argumentativa. Eu entendo que existam perguntas radicais. Perguntar pelo sentido da vida é radical e, na verdade, ciências como a física ou a história, não podem responder a tais perguntas. Ora, parece bastante tentador conceber uma ciência superior, uma sabedoria superior que nos dê respostas. Bate tudo certo. Mas entre um saber que nada sabemos como grau superior da sabedoria humana e um ter a resposta na ponta da língua para tudo, também como grau superior da sabedoria humana, continuo a preferir o primeiro. Este último, para além de levar a um estado de demência intelectual, quando aplicado social e politicamente, conduziu a humanidade aos seus maiores pesadelos.

1 comentário:

José Borges disse...

Pierre é o meu personagem de estimação...