07 junho, 2009

GUERRA E PAZ - XXXI


"O que nele [Rostov] era independente de tudo no mundo e superior a tudo no mundo. O que importavam as perdas ao jogo, os Dólokhov, as palavras de honra?...Tudo disparates! É possível degolar, roubar e, mesmo assim, ser-se feliz." Livro 2, 1ªparte, capítulo 15

A repugnância, tal como o medo, é uma das emoções básicas tanto do homem como do animal. Um animal cheira a comida antes de a comer. Se esta estiver estragada, rejeita-a. Também nós, por muita fome que tenhamos, somos incapazes de comer pão cheio de bolor ou qualquer coisa que cheire a podre. É uma defesa. Imaginemos que não tínhamos esta capacidade de sentir repugnância. Morreríamos envenenados, tal como morreríamos muito mais facilmente se não sentíssemos medo.

Na moral, existe também um marcador emocional que nos impede de sermos arbitrariamente maus: o sentimento de culpa ligado à nossa consciência moral. Só que a construção de uma disposição moral, sendo artificial (apesar de haver mecanismos biológicos que suportam a possibilidade de uma moral), não tem a força de um instinto. Daí o nosso grande problema. Um violador destrói para sempre a vida de uma jovem rapariga mas o seu prazer está acima do sofrimento da rapariga, do mesmo modo que o prazer do pedófilo vale mais do que a humilhação de uma criança e o prazer de alguém que rouba é bem mais importante do que o dano provocado naquele que é roubado.

E não se trata apenas de uma questão de consciência. O fumador sabe que o tabaco faz mal mas continua a fumar e a ter prazer em fumar. Também o ladrão tem a perfeita consciência de que não é bonito o que está a fazer. Isto, em psicologia, tem o nome de "dissonância cognitiva", um desencontro entre a parte cognitiva e a parte emocional.
Daí eu compreender o cristianismo com a bela história do amor. O amor, quando funciona, é bem mais eficaz do que qualquer programa racional, republicano, cívico. Fosse o homem uma máquina de amar e o problema seria facilmente resolvido. Mas desde Platão (ou Heraclito?), chegando depois a Freud, que sabemos não ser essa máquina. Ou melhor, somos essa máquina mas somos também o seu antídoto.

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