01 junho, 2009

GUERRA E PAZ - XXX


Tive, pela primeira vez, um momento difícil durante a leitura do romance. Havia anteriormente referido a morte de Andrei Bolkonski. Foi isso que Tolstoi terá dado a entender: Andrei morrera enquanto a sua jovem esposa, em casa do sogro, esperava o nascimento de um filho.

Acontece que, um dia, sem ninguém estar à espera, Andrei chega a casa. E chega precisamente durante o trabalho de parto da mulher. Ora, é nesse momento em que Andrei "ressuscita" que Lisa, a mulher, morre durante o parto.

Reagi mal, confesso. A um efeito dramático que soa demasiado artificial. Quando li isto a primeira coisa que me veio à cabeça foi um daqueles épicos momentos das telenovelas mexicanas que encharcam lençóis de lágrimas salgadas. Mas, ao mesmo tempo, não pude evitar um sentimento de culpa: comparar o grande romancista russo a uma telenovela pindérica não pode deixar de ser um sacrilégio.

Mas depois pensei que se tratava de um livro escrito no século XIX. Como leria uma pessoa do século XIX este episódio? Não sei. Mas não seria certamente como lê uma pessoa do século XX. Eu leio isto já com os preconceitos elaborados a respeito deste tipo de argumento. Mas a idiossincrasia romântica é muito anterior à nossa consciência de certos artificialismos dramáticos e até da nossa consciência do kitsch.

Dizia Schleiermacher que, com a hermenêutica, podemos compreender melhor um autor do que ele se compreendeu a si mesmo. Nem sempre, acho. Acho é que, muitas vezes, através de um autor passado, nos podemos compreender melhor a nós próprios. Neste caso, eu ganhei uma consciência de mim através do meu constraste com a consciência de um autor que, se escrevesse hoje, já não escreveria daquela maneira. A não ser que trabalhasse nas telenovelas da TVI.

Sem comentários: