21 junho, 2009

ESTE PAÍS NÃO É PARA ESQUISITOS

Ontem bem cedinho, que estas temperaturas não estão para brincadeiras, fui a um hipermercado comprar um peixinho para o almoço.
Ia eu em grande velocidade, quando quase esbarro com uma enorme banca de livros. Parei. Ali, tendo a jusante detergentes e a montante produtos relativos a intimidades femininas, estavam duas enormes mesas cobertas de livros.
Bem, eu sou uma esquisitinha: supermercado não é sítio para livros e ponto final. Os livros devem ser comprados nas livrarias, devem estar impregnados daquele cheiro de papel que chama por nós. Um sítio onde se vendem livros deve ter dignidade e um supermercado limita-se a ser um local onde é uma enorme maçada ter a obrigação de ir. Mas isto são coisas minhas e adiante.
Porém, amáveis e simpáticos leitores, sabeis vós o que publica neste país?
Ora bem, havia os incontornáveis Daniel Sampaio e Eduardo Sá a ensinarem uns a serem melhores pais, outros a serem melhores avós. Lobo Antunes espreitava timidamente por debaixo de uma pilha que ensinava a humanidade a ser mais feliz. Vi, nem sabia que tal coisa tinha sido publicada, As minhas orações do Padre Borga. Santo Agostinho, ao menos, ao publicar as Confissões, revelou uma muito melhor estratégia de marketing.
Havia, para além de perólas deste calibre, títulos como: Um pequeno grande amor, Amar depois de perder-te, Não sei nada sobre o amor, Matemática do Amor, Amor em segunda mão. Claro, não faltavam os inevitáveis Margarida Rebelo Pinto em grande quantidade, quantidade essa desnecessária tanto que está visto e provado que a senhora se copia de obra em obra. Um deles até tinha uma fita de seda, com um laço, à volta. Até dava vómitos.
Ah! E vi lá A maravilhosa aventura da vida de Clara Pinto Correia. Mas essa merece-as, merece estar lá meio daquela tralha toda.
Enquanto me afastava, vi no cimo da pilha A Lenda de Martim Regos. Olhei para a fotografia de Pedro Canais e aquela expressão distante e triste fez-me lembrar qualquer coisa. Quando regressava a casa lembrei-me: uma amiga minha fez, durante muito tempo, grandes sacrifícios para comprar a casa de que precisava, trabalhou arduamente para isso e, finalmente, instalou-se. Durou uma semana a sua sensação de plenitude. Mudaram-se para o apartamento do lado os vizinhos mais indesejáveis do mundo, fazem barulho a todas as horas e mais algumas, não respeitam as mais elementares regras do condomínio e outras barbaridades. Ela tem sofrido em silêncio, até porque consta que os ditos vizinhos andam armados.
Desde então, ela tem, permanentemente, a expressão do Pedro Canais na contracapa de A lenda de Martim Regos.

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