27 junho, 2009

ESPAÇO SCHENGEN

Esta tarde, embora não me apetecesse sair, a vinda do meu filho a casa para passar o fim-de-semana entre dois exames torcidos e, tendo eu recebido um sms dele com a súplica de uma açorda de camarão, lá fui em demanda dos ingredientes a um supermercado.
Eu tenho sempre sede e é-me habitual parar em qualquer cafezito de entrada e pedir uma água com gás. Também é normal a empregada perguntar: "Quer um copo?". Que raio! Fico sempre a pensar naquilo. Será que deduzem que a água é para levar e, como tal, não será necessário o copo?
Hoje, porém, não estava disposta a deixar o assunto por esclarecer. À esperada pergunta " Quer um copo?", respondi: "Pois, obviamente! Por onde quer a menina que eu beba?"
Passo a transcrever o diálogo:
A menina - Sabe, há muitas pessoas que não querem copo. Gostam mais de beber pela garrafa.
Eu - Ah! ... pessoal novo?
A menina - Não, não! Há muitas senhoras que não querem copo.
Eu - Mas está a ver: eu tenho quase 5o anos. Devem ser senhoras muito mais novas.
A menina - Nããão! Ainda há pouco, esteve aqui uma senhora velhota que bebeu o sumo pela garrafa.
E o diálogo ficou por ali. É o cigarro ao canto da boca em versão líquida. Uma mulher, de pé, junto ao barzito de um supermercado, a beber pela garrafa, deve ser uma imagem esplendorosa.
Eu não ando a dar-me bem com o séc. XXI. Perderam-se referentes fundamentais. Pois, eu sei que a liberdade, a igualdade e a fraternidade são coisas muito boas. Mas também sei que é muito mau, o pessoal não saber muito bem a quantas anda. Não saber que deve falar para a pessoa X num determinado registo e para a pessoa B noutro; não saber que, se for a um funeral, convém levar uma roupita pouco espalhafatosa; não saber que um casaco de peles fica mal a quem anda às compras, na praça, ao sábado de manhã.
Depois, tudo isto é uma maçada. Dantes, os homens travavam-se de razões e, na madrugada seguinte, escolhidos os padrinhos e as armas, um duelo resolvia a questão.
Imagine o leitor que alguém me anda a fazer mal e muito mal há muito tempo. Eu perco a paciência, mato a criatura e minha advogada, coitada, que para lá está atafulhada de divórcios, partilhas e heranças, vai ter de dizer ao juiz: " Sabe, Meritíssimo, a minha constituinte reconhece o espaço em que vive mas não reconhece o tempo em que vive. Mais prosaicamente: é doida."
O meu destino é a ala psiquiátrica de uma prisão.
Se é possível emigrar para outro país, por que razão não se poderá emigrar para outra época?

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