12 junho, 2009

"EM NAMBUANGONGO A GENTE PENSA QUE NÃO VOLTA"

Hoje, uma reportagem cautelosa da SIC lembrou-me um assunto no qual não pensava há algum tempo.
Sempre considerei estranho que, estando vivos (felizmente) muitos dos que por lá passaram, tão grande fosse o pudor em falar da guerra colonial.
Criara-se à volta do assunto um silêncio cúmplice que me parecia uma heresia histórica: quem participa e é testemunha dos tempos com que o Tempo se tece tem a obrigação de transmitir memórias que sejam a matéria de que se fará a compreensão dos vindouros.
Assim o entendia eu e em vão procurei essas memórias. Todos os ecos do passado se calaram à minha impertinência. Todos à excepção de um velho sargento que nada me disse do que eu queria ouvir mas que me disse por que razão não dizia o que eu queria ouvir.
A reportagem da SIC estava cheia de boas intenções, de associações de veteranos, de stress pós-traumático. Mas era tão leve o modo como falava dos homens velhos, de olhar perdido, de vida desamparada. Os homens a quem, aos 20 anos, tinham dito que era possível ganhar uma guerra de guerrilha.
Para eles, este poema de Manuel Alegre:
AS ARMAS
No teu silêncio há um grito de protesto.
E ninguém sabe.
Há uma espingarda no teu gesto.
E ninguém sabe.
As armas estão por dentro do teu braço.
E ninguém sabe.
Ninguém sabe que tens punhais de vento
nos teus dedos.
Nem mesmo os que te seguem passo a passo
nem mesmo os que procuram os teus segredos.
Ninguém sabe que já não tens fantasmas
no pensamento.
Mas armas.

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