30 junho, 2009

ELOGIO DO QUOTIDIANO

Estas duas pinturas, relativamente próximas no tempo, são, na sua essência, radicalmente diferentes apesar de o tema quase comum. A primeira é de Ribera, um dos principais pintores espanhóis do período barroco e mostra-nos uma velha usurária. A segunda é de Vermeer e dá-nos a ver uma mulher pesando ouro numa balança. Apesar de habituado a pintar santos em ambientes soturnos (S. Sebastião, S. Francisco de Assis. S. Jerónimo, S. Mateus, Santa Egipcíaca) à mulher que aqui se vê a mexer no dinheiro está associada uma carga bastante negativa. Velha, feia, submergida na escuridão, mexe no dinheiro dando-nos a sugestão de algo proibido, feio. Ribera pinta a velha usurária, condenando claramente a sua acção.

Veja-se agora a pintura de Vermeer. A elegância e serenidade do seu gesto, a beleza das cores mas, sobretudo, o modo como é iluminada pela luz vinda da janela. Contrariamente à mulher de Ribera, escondida na escuridão, a mulher de Vermeer é mostrada por este a pesar o ouro do mesmo modo que, noutras pinturas, mostra mulheres tocando guitarra ou cravo, a receber uma carta, a beber um copo de vinho ou a despejar leite para um pote.

Enquanto o católico Ribera se compraz a denunicar a vergonha de um gesto profano, Vermeer mostra-nos esse gesto no seu imaculado esplendor. Faz aquilo a que Todorov chama de “elogio do quotidiano”, dá-nos o prazer do sensível, dos pequenos gestos, da vida tal como ela é. Enquanto Ribera nos dá um modelo de vida através dos seus macilentos e doentios santos, Vermeer mostra-nos como modelos de nós próprios.

Se pensarmos no que é ainda hoje a Holanda e o que até há pouco foi a Espanha assim como Portugal, certamente que estas duas pinturas poderão ajudar a entender muita coisa.

1 comentário:

José Trincão Marques disse...

Max Weber, no início do século XX, na obra «A ética protestante e o espírito do capitalismo» encontra algumas explicações e consequências para estas duas perspectivas de encarar a vida.
É curioso que já Antero de Quental, em 1871, nas Conferências do Casino, tinha chegado a conclusões semelhantes nas «Causas da decadência dos povos peninsulares».