14 junho, 2009

ET SI ON CHANTAIT?

Como sabem os leitores deste blogue, José Borges é muito cá de casa. Gostamos do moço e dizemos muitas vezes que, se aos 20 anos ele pensa e escreve assim, o que não fará aos 40.

Nunca me hei-de esquecer de lhe ter lido uma coisa que eu julgava ser a única pessoa no mundo a dizer: "Eu sempre quis ser velho." Já consegui, José. Yes! (Olhe, que a inveja é uma coisa muito feia!)

Ora bem, recordo ter lido no blogue dele que o José se lembra de ROSA de Jacques Brel em alturas de exames.

Este ano levei para uma das minhas aulas de Latim a referida canção. Os meus alunos, capazes do melhor e do pior, adoraram e, como aquelas avestruzes não sabem mais do que cinco palavrinhas em francês, lá lhes traduzi aquilo. Tomaram-lhes o gosto e, no outro dia ( sem ter nada a ver, como é óbvio) estavam a pedir a tradução de La MAMMA do Aznavour.

Para o José, enredado nas subtilezas do Processo Penal, para o meu filho, mergulhado nas ondas da Mecânica dos Fluidos, para o Ega, atormentado pelas concessionárias das auto-estradas, e para os meus alunos que, no dia 22, têm de, como escreveu Vergílio Ferreira: "travar uma guerra de Tróia a golpes de dicionário", aqui fica o vídeo (que é sempre bom ouvi-lo), a letra e a minha tradução. É coisa fraquita, mas quem dá o que tem...




BREL
Rosa rosa rosam
Rosae rosa rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis

C'est le plus vieux tango du monde
Celui que les têtes blondes
Ânonnent comme une ronde
En apprenant leur latin
C'est le tango du collège
Qui prend les rêves au piège
Et dont il est sacrilège
De ne pas sortir malin
C'est le tango des bons pères
Qui surveillent l'œil sévère
Les Jules et les Prosper
Qui seront la France de demain
Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosarum rosis rosis
C'est le tango des forts en thème
Boutonneux jusqu'à l'extrême
Et qui recouvrent de laine
Leur cœur qui est déjà froid
C'est le tango des forts en rien
Qui déclinent de chagrin
Et qui seront pharmaciens
Parce que papa ne l'était pas
C'est le temps où j'étais dernier
Car ce tango rosa rosae
J'inclinais à lui préférer
Déjà ma cousine Rosa
Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis
C'est le tango des promenades
Deux par seul sous les arcades
Cernés de corbeaux et d'alcades
Qui nous protégeaient des pourquo
iC'est le tango de la pluie sur la cour
Le miroir d'une flaque sans amour
Qui m'a fait comprendre un beau jour
Que je ne serais pas Vasco de Gama
Mais c'est le tango du temps béni
Où pour un baiser trop petit
Dans la clairière d'un jeudi
A rosi cousine Rosa
Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis
C'est le tango du temps des zéros
J'en avais tant des minces des gros
Que j'en faisais des tunnels pour Charlot
Des auréoles pour saint François
C'est le tango des récompenses
Qui vont à ceux qui ont la chance
D'apprendre dès leur enfance
Tout ce qui ne leur servira pas
Mais c'est le tango que l'on regrette
Une fois que le temps s'achète
Et que l'on s'aperçoit tout bête
Qu'il y a des épines aux Rosa
Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis

IVONE

Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis

É o mais velho tango do mundo
aquele que as cabeças loiras
entoam como canção de roda
a aprender o seu latim.
É o tango do colégio
que apanha os sonhos numa armadilha
e de onde é sacrilégio
não sair um finório.
É tango dos padres atentos
que controlam, de olhar severo,
os Júlios e os Prósperos que serão a França de amanhã.

Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis


É o tango dos forte a traduzir,
abotoadinhos da cabeça aos pés,
que tapam e retapam com lã
o coração deles que já é frio.
É o tango dos fortes em coisa nenhuma,
que declinam entristecidos,
e que hão-de ser farmacêuticos
porque o papá não o foi.
Era o tempo em que eu era o último
porque a esse tango, rosa rosae,
eu já me inclinava a preferir
a minha prima Rosa.

Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis


É tango dos passeios,
os dois sozinhos sob as arcadas
cercados de corvos e de alcaides
que nos protegiam dos porquês.
É o tango da chuva no pátio,
o espelho de um charco sem amor,
que me fez perceber, um belo dia.
que eu não seria Vasco da Gama.
Mas é o tango do tempo abençoado
onde, por um beijinho bem pequenino,
na claridade duma quinta-feira,
ficou rosada a prima Rosa.

Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis


É o tango do tempo dos zeros
e eu tinha tanto, magros e gordos,
que fazia com eles túneis para Charlot
e auréolas para São Francisco.
É tango das recompensas
merecidas pelos que têm a sorte
de aprender desde a infância
tudo o que não lhes vai servir de nada.
Mas é o tango que se lamenta
quando o tempo começa a comprar-se
e percebemos, feitos tontos,
que há espinhos nas Rosa.


Rosa rosa rosam
Rosae rosae rosa
Rosae rosae rosas
Rosarum rosis rosis

P.S. (salvo seja) Não consegui acertar as configurações desta coisa. Fica a intenção.

5 comentários:

José Borges disse...

Bolas, estas coisas deixam-me sempre sem jeito!

Obrigado pelas palavras, Ivone...

Ega disse...

Também agradeço esta pequena, mas sentida, atenção.

E que bela canção esta, que a minha enorme ignorância não me permitia, até agora, conhecer.

De resto, quanto aos três anos de Latim que, por opção, também tive no secundário, recordo acima de tudo um professor, bom homem e de um grande coração, de seu nome Aladino (foi o último de cinco que tive em tres anos). Além disso, naquele tempo,o que me interessava mesmo nas aulas de Latim, confesso, era apenas as Guerras Púnicas e o grande Aníbal.

Cumprimentos

disse...

Ah, o Brel! Embora Rosa não seja das minhas favoritas, também a passava e estudava nas aulas, quando dava Francês. Bons tempos.
Traduzir o texto é um acto de coragem, não apenas devido à diferença cultural e linguística, mas sobretudo porque o Mundo mudou muito nestes últimos quarenta ou cinquente anos. E talvez haja incorrecções: por exemplo ( e não fui verificar) "Boutonneux jusqu'à l'extrême" não remete para a borbulhagem dos miúdos? O meu Francês está tão enferrujado, "faute d'usage"!
Um abraço.

Ivone Costa disse...

Zé, obrigada pela gentileza do comentário. Traduzir este texto não é um acto de coragem mas sim de pura insconsciência. Todavia, não venho da Filologia Românica e isso deixa-me numa confortável inimputabilidade. Tens, é mais que certo, razão quanto ao "boutonneux" que significa "borbulhoso", enquanto para "abotoado" existe "boutonné".Poderá, eu sei lá, haver aqui um jogo de palavras, porque eu consigo ver o Jules que vai ser farmacêutico, abotoadinho até ao último botão do colarinho e com duas camisolinhas de lã por cima.
Deixa-te lá de conversas sobre a ferrugem do teu francês que mentir é feio.
Obrigada, meu velho, e volta sempre.

(Um dia ponho aqui "La chason des vieux amants" que sei ser a tua preferida)

Ivone

disse...

A minha preferida é Ne me quitte pas. Trouxeste o Brel e eu, saudosista, coloquei um post no meu blogue sobre a primeira canção que ouvi dele, Amsterdam. Não deves apreciar: sei que não são as tuas personagens.
Um abraço.