29 junho, 2009

AS PERNAS

Há uma parte do Fédon em que Sócrates diz que o visível, o físico, não chega para compreender a realidade. E dá um exemplo engraçado. Imaginemos uma pessoa que vai a andar na rua e nós queremos saber porquê. Ora, ela anda porque tem a propriedade da locomoção. Porque possui ossos, músculos, tendões.
Ora, mas se ela anda é porque vai para qualquer lado, tem uma finalidade. Será então nos ossos, músculos ou tendões que temos a resposta? Não. As pernas que andam são as pernas de alguém que vai apanhar um comboio, ou comprar um jornal ou apenas passear. E que tem ideias, objectivos, sentimentos, convicções. Em suma, as pernas, enquanto elemento físico, não chegam portanto para explicar a locomoção.

As pernas que se vêem em cima são de uma fotografia que tirei de um jornal há já alguns anos. Eram as pernas de figurantes que participaram num filme de Manoel de Oliveira mas que tinham também participado na Floribela, e outras telenovelas do género. Trata-se de pernas cujos movimentos são sempre os mesmos. São os movimentos dos músculos, dos ossos, dos tendões. Seja no filme de Oliveira ou na Floribela. Ou que tanto poderiam andar num filme de Tarkovski como num do Cantinflas.

É por isso que esta fotografia é poderosíssima.

Não estou a pensar no que escreveu no seu diário, irritado, o nosso D. Pedro V, após uma visita à universidade de Coimbra: “É gente que hoje grita vivam os gregos, amanhã dirão vivam os troianos”. Não tem a ver com relações humanas e esse tipo de coisas. É metafísica: onde estou eu para além das minhas pernas? Serei mais do que um simples figurante? Um figurante tem duas pernas. E sabe que tem de ir por ali ou por acolá. Porque há um realizador, de megafone na mão, numa cadeira, a dizer o que tem de fazer. Tem de conhecer o guião do filme? Como vai acabar? Se é uma comédia ou um drama? Não. A única coisa que tem de fazer é usar as pernas durante aqueles segundos em que atravessa a rua. Os sapatos, as meias, a roupa, claro, mudam conforme o filme. Se forem figurantes num filme medieval, os sapatos são diferentes dos de um filme português dos anos 40. Mas as pernas não passam de pernas que andam.

Na vida, é a mesma coisa. Eu penso o que penso, sinto o que sinto, só porque vivo aqui e agora. Somos figurantes e não temos de estudar nenhum papel como acontece com os actores principais. Passamos pelas coisas, ou melhor, as coisas passam por nós e a única coisa que temos de fazer é andar, como se os músculos, os ossos, os tendões, tivessem vida própria.
Mas vivesse eu daqui a cem anos e onde iriam parar os meus pensamentos e os meus sentimentos de agora? Ao sótão da História. Ou pior: ao caixote do lixo da História. Tal como foram parar os de todos os outros figurantes que já viveram.

Um homem medieval pensava e sentia aquilo que seria óbvio pensar e sentir. Também nós pensamos e sentimos o que é óbvio pensar e sentir. Experimentemos agora pensar e sentir como ele. Não somos capazes. Já nada daquilo existe. Morreu. O que é óbvio também morre, não sendo, afinal, assim tão óbvio quanto isso. Será então que não passamos, como dizia Píndaro, de um sonho de uma sombra? Quem sou eu para além de mim mesmo? Onde estou eu para além das minhas pernas? Será possível deixarmos de ser figurantes e passarmos a actores? Estamos condenados a ser um par de pernas sem alma?
Perguntas difíceis. Não foi por acaso que Sócrates foi condenado à morte.

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