29 junho, 2009

ANTES DE ADORMECER

Uma destas noites, o Pedro deve ter ficado cansado do Naruto e queria a história de Sansão e Dalila. Foi o cabo dos trabalhos: no meio de tanta coisa que por aqui está escrita não havia um Sansão e Dalila em adequada versão infantil.
Um pai de mão e pés atados. Pois, porque o Zé Ricardo, que se move como peixinho na água entre coisas chamadas "substância primeira", "acidente e substância", "dialéctica transcendental", a muito em voga cá em casa neste momento, "liberdade negativa" e outras transcendências de igual calibre, quando se trata de de fazer uma narrativa, nem vos digo nem vos conto. Dizem que a minha Agustina se esquece do nome das personagens? Nunca ouviram nada. O Zé Ricardo, quando conta qualquer fait-divers, ignora completamente a cronologia dos acontecimentos. Ele conta. Se aconteceu antes, depois ou se vai acontecer amanhã, tanto faz. O ouvinte que ponha ordem no que ouve.
Às vezes é hilariante, outras é de perder a paciência.
Temendo ver a criança traumatizada, disse-lhe que esperasse um bocadinho que eu ia escrever-lhe a história e o pai já lha lia.
Bem, pensava eu que era fácil. Há doze anos que não conto histórias a meninos de onze. Que linguagem usar? Apercebi-me, pela primeira vez, o quão difícil é escrever para crianças.
O Pedro gostou ( com algumas perguntas complicadas pelo meio ...) e aqui fica para quem a quiser usar em caso de urgência semelhante.
Contar uma História ao Pedro

Eu ia começar a escrever “era uma vez” porque é assim que começam as histórias que aconteceram há muitos, muitos anos. Porém, o tempo em que esta história se passou é um tempo ainda mais antigo. É um tempo ainda antes do tempo em que começam as histórias que começam por “era uma vez”.
Bem, mas vamos lá à história que com esta conversa estamos é a perder tempo.
Na terra em que isto se passou, sempre houve muitos problemas entre os povos que a habitavam. Mas isso são assuntos complicados que os meninos só vão percebendo à medida que vão crescendo. Esses povos não se entendiam a conversar uns com os outros. Eu já disse que tudo isto se passa num tempo muito antigo, não disse? Pois. Nesse tempo os homens dispunham ainda de poucas palavras para conversarem e até o pensamento deles andava devagarinho. Por isso eles tinham muitas dificuldades em resolver os problemas deles e envolviam-se em guerras, em lutas, em brigas. Constantemente.
A um desses povos pertencia um rapaz chamado Sansão. Tinha um cabelo muito grande, muito grande, muito grande. Era forte, muito forte. Ganhava as lutas todas.
Ora, Sansão gostava muito de raparigas. Gostava dos olhos delas, do perfume delas, dos cabelos delas, do som da voz deles. Ora, assim como há rapazes que gostam de raparigas que são baixinhas e outros que gostam de raparigas que são altas, Sansão gostava de raparigas que pertenciam a um povo, os Filisteus, que eram inimigo terrível do povo de Sansão.
Houve uma altura em que ele foi à cidade de Timna e encontrou lá uma rapariga filisteia e quis casar com ela. Os pais dele disseram: “Ó Sansão, toma lá cuidado, olha que ela pode ser uma espia do inimigo!” Mas Sansão não quis saber e casou com ela. Correu tudo muito mal. Muito mal. Os irmãos dela tentaram matar Sansão mas ele era muito forte e não conseguiram.
A rapariga lá regressou ao povo dela, mas Sansão não ficou por ali. Uma vez que foi a Gaza, viu lá outra rapariga filisteia muito bonita.
Os pais dele disseram: “Ó Sansão, toma lá cuidado. Não olhes só para os cabelos dela e para os olhos dela. Olha para dentro do coração dela.”
Mas, desta vez, não houve grande problema porque Sansão só andou a passear de mão dada com ela debaixo das palmeiras e não houve casamento.
Mas, um dia, Sansão foi à cidade de Sorec. Estava a comprar uns tecidos para levar à mãe e um odre de vinho para levar ao pai, quando passou por ele uma rapariga muito bonita. Levava nos tornozelos umas pulseiras com uns guizos de ouro que tilintavam a cada passo que dava. E andava como se dançasse. E ela olhou para Sansão, sorriu e até as pulseiras, que também usava no braço, tilintaram. Nervoso, Sansão perguntou-lhe como é que ela se chamava. E ela disse: “Dalila”.
No caminho de regresso a casa não ouviu mais nada senão o tilintar das pulseiras e o som da voz dela. Nem o barulho do vento nas palmeiras, nem os barulhos da noite, nem os pássaros nocturnos. Nada. Dentro do seu coração só ecoava um tilintar de pulseiras e um nome: “Dalila”.
Chegou a casa e disse aos pais que ia casar com uma filisteia chamada Dalila. E os pais disseram: “Ó Sansão, toma lá cuidado. Não olhes só para os cabelos dela e para os olhos dela. Olha para dentro do coração dela.”
Mas casou mesmo.
Dalila era uma espia. Os filisteus pediram-lhe que descobrisse de onde vinha a força que tornava Sansão invencível.
Sansão disse que se o atassem com as cordas que usavam nos arcos, cordas húmidas, ele não se conseguiria libertar. Quando ele adormeceu, ela assim fez e chamou os filisteus. Sansão, de imediato, se libertou.
Dalila disse-lhe que ele lhe tinha mentido e que se lhe tinha mentido era porque não gostava dela.
Então Sansão disse que as cordas deveriam ser novas, nunca usadas.
Quando ele adormeceu, ela assim fez e chamou os filisteus. Sansão, de imediato se libertou.
Dalila disse-lhe que ele lhe tinha mentido e que se lhe tinha mentido era porque não gostava dela.
Então Sansão disse-lhe que atasse as tranças do seu longo cabelo ao tear e que assim perderia a força.
Quando ele adormeceu, ela assim fez e chamou os filisteus. Sansão, de imediato, se libertou.
Dalila zangou-se, disse que ele não gostava dela e que troçava dela.
Mas a partir desse momento, Sansão começou a entristecer, a entristecer: a rapariga de quem ele tanto gostava só tinha querido casar com ele para o entregar aos filisteus.
Começou lentamente a desistir, a desistir de tudo, não conseguia comer, não conseguia dormir. Passava as noites a delirar. Às vezes, até ouvia um interminável tilintar de pulseiras. Outras vezes ouvia a voz dos pais: “Ó Sansão, toma lá cuidado. Não olhes só para os cabelos dela e para os olhos dela. Olha para dentro do coração dela.”
Uma noite, levantou-se e resolveu acabar com tudo aquilo. Foi ter com Dalila, que dormia enrolada num lençol de linho azulado, e disse: “ O meu cabelo nunca foi cortado, aí reside a minha força. Se mo cortarem, deixo de ser invencível.”
Sem uma a palavra voltou para a cama dele e mergulhou num sono febril, um sono de morte e de angústia.
Durante a noite os filisteus vieram, raparam-lhe o cabelo, levaram-no para uma prisão e foram muito maus para ele. Mas antes de morrer, apesar de muito fraquinho, ainda matou alguns inimigos.
Quem passa, nas noites de Verão, naqueles jardins onde há palmeiras, se puser o ouvido à escuta, consegue ouvir, muito baixinho um tilintar de pulseiras.
Pode ouvir à vontade, não há perigo nenhum: tudo isto se passou há muitos, muitos anos. Nesse tempo, a força das pessoas morava nos cabelos delas, num objecto mágico, num perfume que guardavam escondido.
Agora, a força das pessoas mora bem dentro do coração delas. E eu tenho a certeza absoluta de que isto é verdade.

2 comentários:

Alice N. disse...

As melhores narrativas para crianças são as que conseguem encantar pequenos e adultos. Sophia é, talvez, o melhor exemplo.

Foi isso que aqui encontrei hoje: uma belíssima prosa de encantar! Obrigada pela partilha.

marteodora disse...

Há muita ternura em ler uma história a um puto, ao deitar. Mas há mil vezes mais em escrevê-la, de propósito.
Só para ele.
Isto é especial, bolas.