23 junho, 2009

ADOLPH HITLER





Tanto a propaganda nazi como o imaginário cinéfilo anti-nazi conseguiram perpetuar a imagem de Hitler como a de alguém que não era bem humano. A primeira, num semi-deus. O segundo, num demónio. Só que o homem gostava de cães. E tinha um fraquinho por Eva Braun. Estava afectado pela doença de Parkinson e cada vez mais fragilizado. Gostava de música e de pintura. Ora, tudo isto faz parte de um padrão humano, de alguém que podia ser nosso vizinho.

Mas a questão não é assim tão simples e vou tentar explicar porquê.

Uma coisa que me fascina é a expressão de um animal. Olhamos para um cão que dá saltos quando nos vê ou que parece compreender o que lhe dizemos e criamos a ilusão de que sente ou pensa como nós. Mas é falso. Porque o cérebro do cão, ainda que lhe permita ser mais inteligente do que algumas pessoas que eu conheço, não lhe permite sentir ou pensar como nós, sendo a comunicação uma falsa comunicação, pelo menos no sentido em que a entendemos entre dois seres humanos.

Olho para um macaco e tenho uma sensação de estranheza por causa da ambiguidade das suas expressões. Devido às parecenças físicas, parece haver nele qualquer coisa de humano. O que já não acontece, por exemplo, com um rinoceronte ou uma iguana. Ou até com um peixe. Quando fui ao cinema ver o Nemo, passei metade do filme a dormir precisamente por não conseguir qualquer empatia com o peixe.

Mas olhamos para a cabeça, o rosto, os olhos, a boca do macaco e percebe-se bem o facto de ser um primo que, na longa história da evolução, ficou num lugar bem perto do nosso. Mas não passa de um antropomorfismo produzido pela nossa imaginação. Um macaco é um macaco, um homem é um homem, sendo nós traídos pelas falsas aparências criadas pela parecença física entre nós e eles.

É aqui que eu quero chegar com o nosso Führer. Nós olhamos para Adolf Hitler e parece, de facto, tratar-se de um homem. Tem um rosto, dois olhos, duas orelhas, fala, come com garfo e faca e até liderou um país onde, em tempos, viveram homens como Kant ou Beethoven.

Mas acontece com Hitler o que também acontece com o macaco: somos enganados pelas aparências físicas. Falando como falava, pensando como pensava, agindo como agia, juntando a isso as suas crenças megalómanas, os seus dementes ideais, os seus ódios irracionais e o seu amor por crianças loiras de olhos azuis enquanto outras, a quilómetros de distância, era atiradas para chuveiros que deitavam veneno, é impossível que Hitler se tratasse de um ser humano normal.

Quer dizer, há qualquer coisa de inumano na natureza de Adolf Hitler, embora bem disfarçada pela anatomia humana, tal com acontece quando vemos o macaco cuja anatomia quase humana também nos ilude. Eu olho para Hitler e não posso deixar de pensar em Blade Runner ou no Robocop, filmes em que robots de carne e osso se confundem com os seres humanos. Mas Hitler não era um robot vindo secretamente de um planeta diabólico para destruir a humanidade.

Pode mesmo ter sido até um homem pois há homens que são assim. Mas, do mesmo modo que uma máquina pode sair com defeito de fabrico, também há homens cuja parecença com um ser humano verdadeiro não passa de uma simples coincidência.

3 comentários:

jl disse...

Ou seja (atrevo-me a tirar conclusões): esse humanóide não conseguiu, afinal, apesar de certos sentimentos que o aproximariam de nós, tornar-se no fenómeno que seria se tivesse logrado conciliar o inconciliável...

Ega disse...

Talvez nunca se chegue a compreender como realmente foi possível o que aconteceu.

Também não sei como catalogar (nós gostamos de catalogar) Hitler. Provavelmente, e não soubéssemos o que sabemos, seria perfeitamente possível ter um jantar normal com Hitler.

E, de facto, é a normalidade o que mais me atormenta com a questão do Holocausto Nazi. A normalidade com que o povo alemão, um dos mais sofisticados e avançados do mundo, permitiu e apoiou em parte o mais negro episódio da história humana. Uma normalidade que reconheço em muita gente ainda hoje por este mundo fora.

José Borges disse...

Ver o Hitler a cores é uma coisa estranha, mas eu acho que nem assim me conseguem provar que esse tipo existiu mesmo.