23 maio, 2009

SÓCRATES E A MÁQUINA DE TURING

Estive a observar estes 30 segundos, não sei, umas sete ou oito vezes. O que é aqui interessante não é o engano propriamente dito. Todos nós nos enganamos, dizemos quinta-feira em vez de quarta-feira, João em vez de Luís, Crítica da Razão Pura em vez de Crítica da Razão Prática.

Eu não vou aproveitar este engano para, demagogicamente, dizer que o engenheiro cometeu um freudiano acto falhado, que lhe fugiu a boca para a verdade, que ele, no fundo, o que quer é precisamente um país mais pobre. Na verdade, o que ele quer, é mesmo um país mais rico, sobretudo para o seu amigo Armando Vara e mais uma boas centenas de amigos e amigos dos amigos do Partido Cor de Rosa.

O que se torna aqui fascinante é a semelhança com uma máquina que está programada para, automaticamente, expelir palavas. Sempre com o mesmo timbre, com a mesma gesticulação, o mesmo épico entusiasmo que tanto é usado para dizer que o país está no bom caminho perante uma multidão, como para perguntar "que horas são?". O engano do engenheiro parece a avaria de uma máquina por causa de um grãozinho de areia numa peça mas que, logo retirado, regressa à sua normalidade.

Este engano é muito interessante de um ponto de vista filósofico, mais concretamente no âmbito da Filosofia da Mente. A máquina de Turing coloca-nos o seguinte problema: pode uma máquina pensar? Se nós fizermos uma pergunta a uma máquina e ela nos responder como se de uma pessoa se tratasse, significa isso que a máquina pensa como um ser humano? Será que a máquina, quando responde, tem consciência do que está a responder? Quando a máquina responde: "Lisboa é uma cidade" terá consciência do que é "Lisboa" e do que é uma "cidade"?

O engenheiro, para além de ser um interessante case study em muitas coisas, pode ser também um excelente case study filosófico. À atenção dos especialistas.

4 comentários:

sLx disse...

Suponho que estava a referir-se ao Teste de Turing. A máquina de Turing é um formalismo matemático para definir computação.

Abraço,

João Pedro

Margarida Graça disse...

Já não me admito a mim própria, em circunstância nenhuma, ouvir este senhor... bah...aaah... ou devo dizer gramofone roufenho?!... Pensava eu que assim estava decidido... Afinal, nesta breve visita a Ponteiros Parados, a curiosidade foi superior ao fardo...

José Ricardo Costa disse...

Caro João Pedro,

sim estava a referir-me ao Teste de Turing. Máquina, aqui, é o computador. Há, na verdade, uma diferença entre as duas coisas mas, de qualquer modo, penso que a ideia que pretendia transmitir ficou clara
Obrigado pela correcção.

Um Abraço
JR

addiragram disse...

Admitir a hipótese de um lapsus linguae em Sócrates seria admitir também a existência de uma personalidade com um interior povoado de complexidades e conflitos. O inconsciente afloraria por um abrandamento das defesas, deixando escapar uma outra parte sua...Infelizmente a sua personalidade parece aproximar-se mais de uma bidimensionalidade, e o sentimento que temos, ao ouvir a sua voz e o seu discurso, de algo mecânico e completamente dissociado dos afectos,é perfeitamente assimilável à dita Máquina de Turing.Aqui as palavras não têm uma profundidade e um valor comunicativo mas passam a ser palavras-objectos que servem unicamente para preencher um vazio e funcionar como um ruído atordoador.