11 maio, 2009

PALAVRAS E PENSAMENTOS

O John Searle tem uma célebre frase que estará para ele como o "Cogito, ergo sum" está para Descartes: "You cannot think clearly if you cannot speak and write clearly". Isto, para mim, foi sempre clarinho como a água. Vendi sempre esta ideia como se fosse um inabalável dogma.
Porém, há dias aconteceu-me uma coisa curiosa. Eu estava a ler o Barão d'Holbach e, entretanto, deparo com a seguinte frase: "Lorsque nous voudrons connaître l'homme, tâchons donc de découvrir les matières qui entrent dans sa combinaison et qui constituent son tempérament;".
Eu estou fartinho de saber que "tâche" significa tarefa. Só que, ao dar aqui com a palavra transformada em verbo, fiquei atrapalhado. Aliás, ainda hoje não sei traduzir correctamente a frase. Mas entendo perfeitamente o que o autor quer dizer. Ou seja, passa-se, dentro da minha cabeça, um processo cognitivo complexo que eu não sei verbalizar. Não sei dizer, nem escrever isto. Mas entendo-o tão bem como se soubesse dizê-lo ou escrevê-lo. Sem ser capaz de dizê-lo, compreendo-o tão bem como o que penso quando digo ou escrevo "As mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos".
O que pode isto querer dizer? Que a linguagem pode não ser assim tão determinante na formação dos nossos raciocínios. Haverá, de facto, um processo linguístico na nossa cabeça quando estamos a pensar? Por exemplo, ao estar a escrever este post e ao ver as palavras aparecerem no computador, o que aparece no computador não equivale ao que acontece dentro da minha cabeça. O que se passará, afinal de contas, dentro da nossa cabeça quando pensamos? Ainda hoje, isto não é claro para mim
Um esquizofrénico, que ouve vozes, teria aqui a sua vida facilitada.

5 comentários:

estela disse...

é por essas e por outras que gosto tanto de kant e wittgenstein! :)

limitados à cronologia como estamos, há sempre um antes e um depois nas palavras. mesmo a maior clareza não explica a simultâneidade. não a transporta, não a apresenta.

e limitados ao espaço, ainda que com escapes gloriosos como a meditação, continuamos presos à língua que usamos, aos sentimentos nela transportados (que diferem de língua para língua) e às ideias que crescem na cabeça de cada um ao usar palavras.

entendo perfeitamente a vontade de vender a frase de searle como um dogma, mas sei que mais inabaláveis ainda são os factos, o modo como os pensamos e os limites da linguagem.
escrever e falar com clareza não são sinónimos de pensar com clareza e..pensar com clareza (in)felizmente não diz nada sobre o mundo.

Alice N. disse...

As questões que coloca são muito interessantes. Penso que estão aqui em causa duas vertentes: a da interpretação da mensagem verbal e a do pensamento em sentido mais lato.

Não tenho dúvidas que só poderemos compreender e reflectir sobre o que lemos e ouvimos se tivermos um bom conhecimento da língua. Foi por conhecer o significado do nome "tâche" que pôde deduzir e compreender plenamente a expressão "tâcher de".

Não creio, porém, que o pensamento resulte sempre de um "processo linguístico interior". Será, na maior parte dos casos, mais fácil estruturar o pensamento fazendo uso do código linguístico, mas será essa a única forma de pensar? Não pensaremos também através de imagens, por exemplo? Nalguns casos, o pensamento poderá até traduzir-se numa sequência de movimentos. Veja-se o exemplo dos atletas de alta competição que, antes de concretizarem a sua prova, a realizam virtualmente, organizando mentalmente tudo o que lhes compete fazer para alcançarem os seus objectivos. Parece-me que temos aí um exemplo de pensamento sem linguagem verbal, porque o atleta tem em mente o que pretende alcançar e o que deve fazer, mas não processa essas ideias através de palavras.

Também tenho dúvidas que o perfeito domínio da língua seja condição obrigatória para saber pensar (sendo, no entanto, fundamental para a sua clara formulação oral e escrita). Pensemos em deficientes auditivos profundos que dominem mal o código escrito. Temos aí um exemplo em que o pensamento existe, sem o uso de uma linguagem perfeitamente estruturada. Para muitos surdos, por exemplo, certas palavras ditas de "ligação" não fazem qualquer sentido (é o caso de preposições como "de" ou de conjunções como "que"). Eles não necessitam delas para pensar e comunicar. É por essa razão que, ao escreverem, muitos se cingem às palavras mais significativas: nomes, verbos, adjectivos... Daí resultam mensagens de difícil leitura e interpretação, é certo, mas tal não significa que os seus autores não tenham ideias claras e profundas acerca do que escrevem.

José Ricardo Costa disse...

Cara estela, completamente de acordo. A matemática é um bom exemplo.

Cara Alice N., eu também acho que a imagem tem muito mais peso na nossa consciência do que o que parece à primeira vista. Ainda assim não são bem imagens. Quando reflectimos antes de tomarmos uma decisão importante, nem são palavras nem imagens que ocorrem na nossa consciência. Será qualquer coisa de intermédio. talvez ande perto da apercepção transcendental de kant.

Margarida Graça disse...

Vieram-me imediatamente à memória os textos que transcrevo de Camões e de F. Pessoa, que parece também já indicarem o caminho do pensamento e da sua relação com a linguagem:

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Luís de Camões



Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

José Ricardo Costa disse...

Cara Margarida, a resposta pode estar na imaginação de que fala o Pessoa. O que se passa na nossa cabeça quando pensamos pode ser precisamente uma mistura entre conceito e imagem. Não significa que vejamos imagens quando pensamentos, mas há um elemento de ordem sensível que retira aos conceitos a sua absoluta pureza.

JR