22 maio, 2009

O BUNKER


Foi inaugurado, há dias, um novo centro comercial em Portugal. ainda maior do que o maior. Segundo rezam as crónicas, mal as portas abriram, o ataque dos portu­gueses que invadiram o centro foi de tal ordem que, mais do que fazendo lembrar a entrada dos gregos na cidade de Tróia, pareciam formigas tresloucadas à volta de um frasco de mel. O parque de estacionamento entupiu, os corredores e átrios do centro entupiram, até as casas de banho entupiram.

Parece que os portugueses têm mesmo uma enorme atracção por entupimentos. Só isso poderá explicar o facto de, aos fins-de-semana, em vez de procurarem o ar livre, os portu­gueses procurarem lugares onde já estão muitos portugueses. Ora, juntar muitos portugueses a muitos portugueses dá imensos portugueses.
Já no estrangeiro, onde não vivem portugueses, as pessoas procuram os jardins, as praias, as florestas ou o jardim nas traseiras lá de casa. Ora, o que estará na origem desta tão típico desporto nacional que leva os portugueses, depois de uma semana inteira de trabalho em sítios fechados, com luz artificial e ar condicionado, a passarem os seus momentos de lazer em sítios fechados, com luz artificial e ar condicionado?
Eu tenho uma teoria sobre isto. E não é por Darwin estar na moda que esta minha teoria tem algumas ressonâncias evolutivas: tem tudo a ver com uma informação no código genético português mantida ao longo de gerações.

Portugal foi sempre um país inva­dido por diversos povos: os suevos, os visigodos, os árabes, os romanos, os castelhanos, os franceses e, mais recentemente, inglesas embriagadas no Algarve. Em suma, o território que corresponde ao nosso Portugal foi sempre um território ameaçado e sujeito a chacinas, raptos, pilhagens, aldeias destruídas e beijos de inglesas embriagadas adeptas do Liverpool.

O centro comercial tem uma dupla vantagem cujo reconhecimento está guardado no nosso inconsciente colectivo e na massa do sangue. Tem um lado bunker, um espaço físico que nos dá uma sensação de abrigo. Sentimo-nos como os talibãs nas cavernas do Afeganistão, mas com a vantagem de haver montras com luzes que atraem os portugueses como se fossem mosquitos enquanto os talibãs se limitam a entreter com a leitura do Alcorão e de revistas pornográficas.
Depois, o facto de estarem milhares e milhares de portugueses todos jun­tinhos, apertadinhos, ensaduicha­dinhos dá-nos também um enorme sentimento de segurança, sobretudo no caso de aquilo ser, de repente, invadido por milhares de inglesas adeptas do Liverpool embriagadas.

Mas até nisto já estamos mais evoluídos. Enquanto noutras épocas eram os bárbaros que nos invadiam, agora, os bárbaros somos nós. Neste sentido, também para mim o centro comercial funciona como um bunker. A única diferença é que as paredes interiores do meu bunker coincidem com as paredes exteriores do centro comercial.
Jornal Torrejano, 22 de maio de 2009

4 comentários:

Alice N. disse...

Excelente texto. Esta atracção doentia pelos centros comerciais, que tão bem descreve, lembrou-me A Caverna, de José Saramago, uma fantástica metáfora do mundo "moderno" cujo símbolo, por excelência, é o grande centro comercial. Em A Caverna, o centro é muito mais do que um espaço comercial. Ele é o centro da própria vida, uma cidade que se sobrepõe à cidade e que, maravilhas das maravilhas, até dispensa o contacto com o mundo real. Nele, tudo se pode encontrar, até a simulação do sol, do frio e da neve!... O centro tem também os seus residentes, a quem não faltam comodidades que dispensam as desagradáveis janelas para o exterior e a desconfortável luz solar... O centro pensa em tudo, até no que devemos desejar. "Vender-lhe-íamos tudo quanto você necessitasse se não preferíssemos que você precisasse do que temos para vender-lhe" - eis o lema do grande centro!

Estranhamente, muitos são felizes assim: preferindo a anulação ou simulação do real à própria realidade e também que lhes digam o que devem e é moda desejar. Parece-me que os centros comerciais não são mais do que as cavernas da era moderna...

José Ricardo Costa disse...

"Vender-lhe-íamos tudo quanto você necessitasse se não preferíssemos que você precisasse do que temos para vender-lhe"

Grande frase, de uma ironia espantosa.

JR

Alice N. disse...

Sem dúvida. Saramago no seu melhor. A última frase do livro(inspirado na Alegoria da Caverna de Platão) também é espantosa, mas só faz sentido conhecendo todo o conteúdo da obra.

Micha disse...

existe uma filme dos anos 90 'scenes from a mall' engracadissimo que explora a relacao das pessoas e o espaco do mall como uma continuacao natural do espaco privado. Todo o filme e' rodado dentro de um shopping center e Mr. Woody Allen e Bette Midler dao o seu melhor...seu texto me fez lembrar do tal filme.