28 maio, 2009

MULHERES DE CORINTO

Medeia, Pasolini.1969
Ia eu comprar seda para um vestido quando fui interpelada por uma conhecida a quem me ligam meia dúzia de conversas de circunstância. Num ápice, começa a desfiar um rosário de lamentos e queixas. Tão forte é o caudal que só a custo vou percebendo. Um marido a sair de casa, tanto sacrifício, tanta abnegação e tanta indiferença, tantas férias exóticas pagas pelo pai dela, tanta crueldade e tanto desprezo. Tanta intimidade estendida ao sol desta manhã de Maio que começo a sentir-me incomodada.
Para Heidegger a angústia é um sentimento solitário. É certo que se refere a outro tipo de angústia, mas teria mudado de ideias se conhecesse uma única destas figuras que, visitadas pela desventura, sentem necessidade de gritar às mulheres de Corinto, que é como quem diz a todas as que encontram, as vinganças que vão congeminando. A expressão desta angústia não tem nada de solitário.
Entretanto, os saltos de 12 cm das minhas sandálias começam a lembrar-me o empedrado chão. Sinto que ela quer ouvir-me, mas não quererá o discurso da sensatez. E lá começo eu, com a ajuda das Musas que embalam as cóleras funestas. Que sim, que se vingue. Mude as fechaduras das portas, deixe um pano embebido em diluente em cima do carro dele, contrate um advogado daqueles que não perdem um caso desde o bisavô, que usam gravatas Hermès e têm um escritório com uma mobília em torcidos e tremidos e paredes forradas a damasco vermelho. Que sim, que se vingue.
Enquanto me afasto, aprendo, outra vez, que nada é novo sob a rosa do sol.

1 comentário:

estela disse...

lembrei-me, ao lê-la, de tempos antigos em que se pedia aos lobitos escuteiros *um boa acção por dia*.
Mulheres assim, confundindo desgraças com assuntos a resolver, desejam apenas ver confirmadas as suas teorias - pelo que certamente essa senhora hoje foi mais feliz ao resto da vidinha dela, do que vinha antes de dar com a Ivone.