19 maio, 2009

MEDEIA NA BAIXA DA BANHEIRA


Vou a andar aqui no escritório e bato com o cotovelo num livro que cai para o chão. Nunca o tinha visto e o título despertou-me o interesse: Médée et la Violence. Abro-o e dou com um capítulo escrito por um professor de Psicopatologia, Henri Sztulman, cujo título é bastante apelativo, " Le mythique, le tragique, le psychique: Médée - de la déception à la dépression et au passage à l'acte infanticide chez un sujet état-limite".

Quando olhei para este título não pude deixar logo de pensar no Correio da Manhã, jornal que é sempre bastante produtivo a dar-nos notícias de crimes passionais. Há quem goze com este tipo de informação mas considero isso uma enorme injustiça. Nós olhamos para crimes como o de Medeia e ficamos sensibilizados com a história e até sentimos alguma compaixão e compreensão com a personagem. Mas se lermos no Correio da Manhã a história de uma qualquer mulher de um subúrbio de Lisboa, que mata os filhos para se vingar do marido por este andar a dormir com outra, já achamos que é história de faca e alguidar e sem a dignidade de uma notícia institucional. A Medeia é história para gente erudita, a história do Correio da Manhã é para o povo. O sangue do povo, o sofrimento do povo, a ira do povo, a depressão de uma mulher do povo é muito diferente de uma mitológica feiticeira filha do rei. Razão tinha Oscar Wilde quando dizia que não é a arte que imita a vida mas a vida que imita a arte.

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