19 maio, 2009

GUERRA E PAZ - XXVII


"E Natacha saiu da sala em pontas como as bailarinas, sorrindo como sabem sorrir apenas as garotas felizes de quinze anos". Livro 2, 1ªparte, cap. 1

Eu não gosto desta frase apenas pela sua beleza poética. Do que eu mais gosto nela é do verbo "saber".

Como aprendeu a sorrir uma garota feliz de quinze anos? Quem lhe ensinou? De que modo sabe ela sorrir? Ora uma garota feliz de quinze anos não aprendeu a sorrir do mesmo modo que aprendeu a falar francês, a bordar ou a saber que Terra roda à volta do Sol.

Há um lado da vida que é espontâneo, natural, irredutível a quaisquer aprendizagens. Mas estamos a assistir, neste início de século, a um gravíssimo aumento de competências por parte da escola que toma a responsabilidade de ensinar tudo a uma criança e a um jovem. Fechada de manhã à noite na escola, entre a ida para o infantário e 15 anos depois, a entrada na universidade, a sociedade delega na escola toda a formação da criança e do jovem.

As democracias modernas, sorrateiramente e como quem não quer a coisa, acabaram por conseguir aquilo com que sempre sonharam os regimes totalitários, fossem fascistas, fossem comunistas: usar a escola como instrumento de controle do indivíduo por parte do estado, formantando a sua consciência através de princípios científicos e racionais.

Já agora, por curiosidade, quantos ex-militantes da extrema-esquerda andarão actualmente a escrever livros de sociologia, de pedagogia, para além daqueles que estão em grande força em muitos governos europeus , ainda que de direita?

1 comentário:

Pedro Ramires disse...

'Com o ritmo que levo ainda vou ter uns bons meses de Guerra e Paz pela frente. '

Ainda bem. Para podermos continuar a ler as suas divagações sobre o que lê. Se bem que nem sempre concordando.

'As democracias modernas, sorrateiramente e como quem não quer a coisa, acabaram por conseguir aquilo com que sempre sonharam os regimes totalitários, fossem fascistas, fossem comunistas: usar a escola como instrumento de controle do indivíduo por parte do estado, formantando a sua consciência através de princípios científicos e racionais. '

Elas (as democracias) até podem estar a tentar (já de si discutível), mas claro que ainda não conseguiram, nem nunca conseguirão. Nem que seja pelo simples facto de o indivíduo (nós, os estudantes) continuar a ler. A literatura corrói, e irá sempre corruir, esses presumíveis sonhos.