13 maio, 2009

GUERRA E PAZ - XXVI


Terminei o 1ºvolume. Com o ritmo que levo ainda vou ter uns bons meses de Guerra e Paz pela frente. Mas não quero saber. É uma obra-prima cuja companhia se recomenda.

Este volume termina com o mortal ferimento do príncipe Andrei Bolkônski na batalha de Austerlitz. A descrição dos seus últimos momentos de vida são absolutamente vertiginosos e um verdadeiro hino à literatura.


Repare-se no contraste entre o céu e a figura de Napoleão que vai visitar os soldados russos entretanto feitos prisioneiros. Faz-me lembrar uma parte de O Leopardo na qual o príncipe Salinas, apaixonado pela astronomia, compreende a insignificância dos nossos pequenos divertissements perante a imensidão do espaço cósmico. As palavras do imperador, aqui, são reduzidas ao zumbido de uma mosca e só o céu passa a ter importância. Por outro lado, o último estado de consciência do príncipe faz-me lembrar os pensamentos de Cristo quando agoniza na cruz em A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorcese. Belíssimo.

Eu sei que pode ser uma maçada mas, ainda assim, não resisto a transcrever algumas passagens.

Sofrendo com a dor, e depois de acordar após um desmaio, diz:

" Que é do céu alto que eu dantes não conhecia, que só hoje vi?".

É interessante, depois, acompanhar o narrador:

"O príncipe Andrei percebeu que se falava dele e que era Napoleão quem falava, porque ouvira tratar por sire aquele que tais palavras dizia agora. Mas ouvia-as como ao zumbido de uma mosca. Não só não lhe despertaram qualquer interesse como quase não reparou nelas, esquecendo-as de imediato. Sabia que aquele era Napoleão, o seu herói, mas neste transe Napoleão parecia-lhe muito pequeno e insignificante em comparação com o que se passava neste instante entre a sua alma e este céu alto e infinito por onde as nuvens corriam.
(...)
parecia-lhe tão mesquinho o seu herói, com aquelas miseráveis vaidades e alegria pela vitória, em comparação com o céu alto, justo e bondoso que tinha visto e finalmente compreendido, que ficou incapaz de lhe responder.
(...)
Olhando Napoleão nos olhos, o príncipe Andrei pensava na futilidade da grandeza, na miséria da vida, cujo sentido ninguém podia compreender, e na miséria, ainda maior, da morte, que nenhum ser vivo compreendia nem podia explicar.
(...)
A maca foi levantada e levada. A cada solavanco, voltava a sentir uma dor insuportável; subia-lhe a febre, começava a delirar. Sonhos em que entrava o pai, a mulher, a irmã e o futuro filho, e a ternura que sentira de noite, na véspera da batalha, e a figura do pequeno e insignificante Napoleão e, por cima disso tudo, o céu alto formavam o conteúdo principal das suas delirantes imagens febris.
Imaginava uma vida sossegada e uma felicidade serena em família, em Líssie Góri. Já se deleitava com uma felicidade assim quando, de repente, lhe aparecia o pequeno Napoleão com o seu olhaar indiferente, limitado e feliz com a desgraça dos outros, e logo o dominavam as dúvidas e os tormentos, e apenas o céu lhe prometia sossego.

3 comentários:

Ega disse...

Também eu demorei uns bons meses para ler esta magnífica obra. Aliás, um dos volumes até fez uma viagem comigo pelo novo continente...

Mas vale a pena. É uma obra obrigatória.

E tenho a certeza que o caro JRC vai gostar especialmente dos últimos capítulos do último volume.

Cumprimentos

Ega disse...

Ah!, e O Leopardo é outra obra magnífica. Principalmente para aqueles, como eu, que se dizem e sentem cépticos.

Extraordinária aquela passagem do tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma.

E depois há a adaptação de Visconti, um dos mais belos filmes que vi até hoje.

Mais duas obras de arte obrigatórias, portanto.

José Ricardo Costa disse...

Caro Ega, é um daqueles textos para os quais podemos olhar para a imensidão do que nos falta ler sem qualquer tipo de constrangimento. Aconteu-me o mesmo com o D. Quixote, para mim, até agora, a obra-prima absoluta.

Quanto ao Leopardo, tem toda a razão, livro e filme. Aliás, este blogue já lhe dedicou vários posts. Se, ali em cima, onde diz "pesquisar no blogue" escrever "Leopardo" poderá encontrá-los.

Cumprimentos,

JR